A Atuação da Psicanálise no Transtorno de Personalidade Borderline

1. A Cisão e a Difusão de Identidade: O Mundo em Preto e Branco

 

Otto Kernberg é a referência central na compreensão da Organização Borderline de Personalidade. Para ele, o ponto crucial é a incapacidade do indivíduo de integrar aspectos positivos e negativos de si mesmo e dos outros. Esse mecanismo de defesa é chamado de cisão.

 

"A característica estrutural mais importante da organização borderline de personalidade é a falta de uma identidade integrada (difusão de identidade) e o uso de operações defensivas primitivas, centradas na clisão [cisão]." [1, p. 161, parágrafo 2].

 

Devido a essa cisão, o paciente borderline vive em um mundo de extremos. Uma pessoa pode ser vista como um "anjo" em um momento e, após uma pequena falha, ser percebida como um "demônio". Não há meio-termo, pois o ego não consegue suportar a ambivalência — a ideia de que alguém pode ser bom e ter defeitos ao mesmo tempo.

 

2. A Falha no Ambiente e o "Holding": A Visão de Winnicott

 

Donald Winnicott trouxe uma perspectiva vital ao focar na relação entre o bebê e o ambiente (a mãe ou cuidador). Para Winnicott, os casos borderline muitas vezes resultam de uma falha no holding (sustentação) durante as fases mais precoces do desenvolvimento.

 

"Nos casos borderline, o problema não é apenas o conflito inconsciente, mas uma falha ambiental que interrompeu o processo de amadurecimento, exigindo que o analista forneça uma forma de 'holding' que o paciente não teve." [2, p. 204, parágrafo 1].

 

Nesta visão, o analista não apenas interpreta o inconsciente, mas oferece um ambiente seguro e estável onde o paciente pode, finalmente, começar a integrar seu senso de self (si mesmo) que foi fragmentado pela falta de suporte adequado no início da vida.

 

3. Ataques aos Vínculos: A Perspectiva de Bion

 

Wilfred Bion contribuiu com o conceito de ataques aos vínculos (attacks on linking). Ele observou que pacientes com estruturas mais graves, como a borderline, podem atacar inconscientemente qualquer coisa que una dois objetos — incluindo a própria ligação entre o paciente e o analista.

 

"O paciente borderline demonstra uma hostilidade dirigida contra tudo o que serve para ligar dois objetos, seja a ligação entre o pensamento e o sentimento, ou entre o paciente e o analista." [3, p. 308, parágrafo 2].

 

Isso explica por que, muitas vezes, quando o tratamento começa a progredir, o paciente pode ter uma reação negativa súbita ou tentar destruir o vínculo terapêutico. É uma defesa contra a ansiedade catastrófica de se sentir dependente ou vulnerável.

 

4. O Narcisismo de Morte: A Contribuição de André Green

 

André Green introduziu conceitos fundamentais como o "narcisismo de morte" e a "mãe morta" para explicar o vazio profundo sentido por esses pacientes. Para Green, o borderline luta contra um desinvestimento radical da vida.

 

"O narcisismo de morte tende ao desinvestimento do objeto e do próprio Eu, buscando um estado de repouso absoluto que se assemelha ao vazio ou à morte psíquica." [4, p. 222, parágrafo 3].

 

Essa busca pelo "vazio" ou a sensação constante de "nada" é uma tentativa desesperada de parar de sentir a dor insuportável da existência fragmentada.

 

5. A Atuação Clínica: O Analista como Recipiente

 

A atuação psicanalítica com o paciente borderline exige que o analista funcione como um continente (conceito de Bion) para as emoções transbordantes do paciente. O analista recebe as projeções intensas, as tolera e as devolve de forma "mastigada" e compreensível através da interpretação.

 

O foco não é apenas mudar o comportamento, mas promover a integração da identidade. Através da análise da transferência (o que o paciente projeta no analista) e da contratransferência (o que o analista sente em resposta), o paciente começa a perceber que pode sobreviver às suas próprias emoções e que o mundo não precisa ser cindido entre o ideal e o terrível.

 

Bibliografia

 

1.KERNBERG, Otto F. Borderline Conditions and Pathological Narcissism. New York: Jason Aronson, 1985. (Originalmente publicado em 1975).

 

2.WINNICOTT, Donald W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. (Referência ao conceito de holding e casos borderline, p. 204).

 

3.BION, Wilfred R. Estudos Psicanalíticos Revisados (Second Thoughts). Rio de Janeiro: Imago, 1994. (Referência ao artigo "Ataques aos Vínculos", p. 308).

 

4.GREEN, André. Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte. São Paulo: Escuta, 1988. (Referência ao conceito de desinvestimento e vazio, p. 222).

 

5.GABBARD, Glen O. Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. (Consultado para síntese técnica).

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