Para a psicanálise, esse esgotamento não é uma falha de gerenciamento de tempo ou um mero desequilíbrio químico. O Burnout é o corpo e a mente cobrando o preço de uma conta que o sujeito não aguenta mais pagar: a conta de tentar corresponder, a qualquer custo, às expectativas do mundo.
Por que nos cobramos tanto a ponto de adoecer? Sigmund Freud, o pai da psicanálise, nos deu a chave para entender isso ao mapear o funcionamento da nossa mente. Ele descobriu que possuímos uma instância interna chamada Supereu (ou Superego), que funciona como um juiz implacável.
Na modernidade, esse "juiz" assimilou a lógica do mercado. Ele não diz apenas o que é certo ou errado; ele exige performance, sucesso e felicidade constante. O problema é que o Supereu é insaciável: quanto mais você produz, mais ele exige.
Como o próprio Freud apontou em sua obra de 1923: "O Supereu se torna tanto mais severo e desconfiado quanto mais o indivíduo se limita a ser virtuoso [...]. É uma instância que se volta contra o próprio Eu com uma fúria sádica, cobrando uma perfeição impossível de alcançar." — FREUD, Sigmund. O Eu e o Id (1923). In: O Eu e o Id, 'Autobiografia' e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 42, parágrafo 3.
O Burnout, portanto, nasce quando o sujeito esgota todas as suas energias tentando aplacar a fúria desse juiz interno que exige que ele seja um profissional perfeito, um pai impecável e uma máquina produtiva.
O termo "Burnout" foi cunhado na década de 1970, pelo psicólogo e psicanalista Herbert Freudenberger, e a sua origem vem da física e da engenharia aeroespacial, onde a expressão era usada para descrever o momento em que um motor de foguete queimava todo o seu combustível e apagava por falta de energia (daí o significado literal: "queimar até apagar" ou "combustão completa").
O paciente que chega ao consultório com Burnout muitas vezes se orgulha de ser "seu próprio chefe" ou de trabalhar por conta própria. O filósofo e psicanalista contemporâneo Byung-Chul Han investiga profundamente esse fenômeno. Ele explica que o adoecimento moderno acontece porque trocamos o chefe carrasco pela autoexploração voluntária.
Acreditamos que estamos buscando a liberdade, mas estamos apenas nos acorrentando a metas invisíveis. Han descreve esse processo com precisão:
"O sujeito do desempenho está livre da instância externa de domínio que o obrigaria a trabalhar ou que poderia explorá-lo. [...] Ele se vê na liberdade, que no entanto se manifesta como coação de desempenho. O adoecer nasce dessa liberdade paradoxal." — HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 25, parágrafo 2.
Quando essa engrenagem falha, o que o leigo chama de "crise de ansiedade" ou "crise de pânico" é, na verdade, o momento em que a máscara cai. O sujeito se depara com o desamparo e percebe que passou anos correndo atrás de um ideal que não era o seu — o que o psicanalista Jacques Lacan chamava de estar capturado pelo "desejo do Outro".
Quando a ansiedade sufoca ou o Burnout paralisa a sua rotina, a primeira tendência é tentar calar esse incômodo... Querer um remédio rápido para voltar a produzir logo. Mas a psicanálise nos ensina a ter um respeito profundo pelo sintoma. O sofrimento não é um erro do sistema; ele é uma verdade sobre você que não encontrou outra forma de se manifestar a não ser travando o seu corpo.
O esgotamento é o freio de emergência da sua mente. É o seu inconsciente dizendo: "Por esse caminho eu não vou mais".
O caminho da análise não oferece respostas prontas ou manuais de resiliência para que você volte a aguentar a pressão. Pelo contrário: o divã é o espaço ético onde você pode tirar o terno, desamarrar o crachá e colocar de lado as expectativas que os outros depositaram em você. É o lugar para investigar a raiz dessa necessidade de carregar o mundo nas costas e, finalmente, reencontrar o seu próprio desejo.
Na GuinaPsi, oferecemos essa escuta qualificada por quem conhece de perto as pressões da vida real. Um refúgio clínico para que você possa desacelerar, decifrar os seus conflitos internos e resgatar a sua autonomia.
O sintoma dói, mas ele também abre uma fresta para a mudança. Vamos transformar esse seu lugar de dor em fala?
Bibliografia
FREUD, Sigmund. O Eu e o Id (1923). In: O Eu e o Id, 'Autobiografia' e outros textos (1923-1925). Edição das Obras Completas, volume 16. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. [Citação da p. 42, parágrafo 3].
HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. [Citação da p. 25, parágrafo 2].
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. [Referência conceitual sobre a alienação do sujeito ao desejo do Outro, p. 200].
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