Quantas vezes você já pensou ou ouviu a frase: "Se eu ganhasse na loteria hoje, todos os meus problemas estariam resolvidos"? Na superfície da vida cotidiana, o dinheiro parece ser a solução universal para a angústia. Afinal, vivemos em um mundo onde boletos vencem, o custo de vida sobe e a segurança material é uma necessidade real.
No entanto, quando as pessoas chegam ao divã e começam a falar livremente sobre suas finanças, a psicanálise descobre que o dinheiro quase nunca é apenas papel, moedas ou um saldo no aplicativo do banco. Ele é um dos objetos mais carregados de fantasias, medos, culpa e desejos ocultos da mente humana.
Para a psicanálise, o dinheiro funciona como um espelho do inconsciente.
Embora a abordagem aqui seja analítica, não podemos ignorar a realidade material. A falta de dinheiro ou a má gestão dele gera um estresse crônico palpável. Dados estatísticos recentes revelam o tamanho desse impacto no Brasil:
- De acordo com o Indicador de Inadimplência do SPC Brasil e da CNDL, cerca de 40% da população adulta do país iniciou o ano com o nome negativado devido a dívidas.
- Uma pesquisa conduzida pela Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN) apontou que o "estresse financeiro" é hoje uma das três principais causas de insônia, crises de ansiedade e conflitos conjugais no país, afetando diretamente a dinâmica familiar.
Mas por que, mesmo quando a situação financeira melhora, muitas pessoas continuam repetindo padrões de escassez, sabotando os próprios ganhos ou gastando o que não têm?
Sigmund Freud foi o primeiro a perceber que a forma como lidamos com o dinheiro na vida adulta está profundamente ligada às nossas primeiras fases do desenvolvimento infantil. Para a psicanálise, o dinheiro é um equivalente simbólico da libido — a nossa energia vital e de desejo.
Freud descobriu que o dinheiro se conecta com o nosso desejo de retenção, controle e poder, ou, no lado oposto, com a nossa capacidade de doar, entregar e perder. Na infância, o controle sobre as próprias funções corporais é a primeira forma de troca e poder que a criança tem com os pais. Na vida adulta, esse padrão se desloca para as finanças.
Em seu famoso texto de 1908, Freud explica essa equivalência simbólica com precisão:
"As conexões mais íntimas existem entre as complexas ideias de interesse pelo dinheiro e a busca por controle. [...] O dinheiro é tratado pelo inconsciente de maneira idêntica a um objeto de troca afetiva e de retenção de poder que remonta à infância." — FREUD, Sigmund. Caráter e erotismo anal (1908). In: Observações sobre um caso de neurose obsessiva ('O homem dos ratos'), Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 36, parágrafo 2.
Quando alguém sabota as próprias finanças ou "nunca tem dinheiro", o inconsciente pode estar tentando reter algo, punir-se por alguma culpa antiga ou repetir uma lógica familiar de escassez para continuar pertencendo àquele núcleo.
Se Freud foca na energia e no controle, o psicanalista francês Jacques Lacan nos ajuda a entender o dinheiro através da nossa relação com o Outro (a sociedade, as expectativas dos pais, a cultura).
Lacan afirmava que "o desejo do homem é o desejo do Outro". Nós não queremos o dinheiro apenas pelo que ele compra fisicamente, mas pelo que ele representa no olhar de quem nos cerca. O dinheiro é o maior "significante" de valor da nossa cultura. Usamos o saldo bancário ou os bens materiais para tentar preencher uma falta interna que é, na verdade, afetiva e existencial.
O problema é que essa falta é estrutural — ou seja, nenhum valor material é capaz de preenchê-la. Quem busca tapar o vazio da existência acumulando ou gastando compulsivamente entra em uma corrida sem fim.
Lacan aborda essa ilusão em seus seminários: "O dinheiro entra no lugar do que falta ao sujeito, apresentando-se como a medida universal do valor. O erro do sujeito é acreditar que, ao possuir o objeto que o Outro valoriza, ele se tornará finalmente completo e imune à castração." — LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia (1962-1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 184, parágrafo 3.
É por isso que a queixa "não tenho dinheiro" muitas vezes esconde um desamparo muito mais profundo: "não me sinto reconhecido", "não me sinto amado" ou "tenho medo de ser abandonado".
Dizer "meu problema é a falta de dinheiro" é uma excelente maneira que o nosso Ego encontra para não olhar para o que realmente dói. É mais fácil culpar a economia ou o salário do que investigar por que aceitamos relações de trabalho abusivas, por que nos boicotamos na hora de cobrar pelo nosso próprio valor ou por que gastamos o que não temos para sustentar uma imagem para os outros.
O tratamento psicanalítico não vai fazer um milagre financeiro na sua conta bancária, mas oferece algo muito mais valioso: a chance de você entender a raiz da sua relação com a falta.
Na GuinaPsi, o divã é o espaço onde você pode deixar as métricas de lado para investigar de onde vem a sua necessidade de controle, a sua culpa ao prosperar ou a sua paralisia diante dos seus projetos. Compreender o que o dinheiro representa na sua história é o primeiro passo para parar de ser refém dele e resgatar a autoria da sua própria vida.
Bibliografia
- CNDL/SPC Brasil. Indicador de Inadimplência do Consumidor. Relatório estatístico anual sobre endividamento e saúde financeira da população brasileira, publicado em janeiro de 2026.
- FREUD, Sigmund. Caráter e erotismo anal (1908). In: Observações sobre um caso de neurose obsessiva ('O homem dos ratos'), Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910). Edição das Obras Completas, volume 9. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. [Citação da p. 36, parágrafo 2].
- LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia (1962-1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. [Citação da p. 184, parágrafo 3].
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