Quem muito julga, tem medo de ser julgado?

Esta é uma das maiores e mais ricas contradições que pegamos no dia a dia da clínica. Aquela pessoa que passa a sessão inteira sofrendo e reclamando: "Porque fulano me julgou", "Porque as pessoas colocam rótulos em mim...".

 

Mas que, na primeira oportunidade, vira o tribunal para cima até do próprio analista: "Você franziu a testa por quê?", "Você está me achando um idiota, né?" ou "Você usou essa palavra porque discorda de mim".

 

Para a psicanálise, quando a pessoa faz isso, ela está entregando de bandeja a chave da própria neurose. Há três movimentos inconscientes acontecendo aí que o analista precisa ler.

 

No Mecanismo da Projeção, a pessoa que vive com medo do julgamento alheio e que julga os outros o tempo todo costuma ser, na verdade, o seu próprio carrasco... com um superego extremamente rígido e cruel.

 

Como o indivíduo não aguenta o peso de se julgar o tempo todo, sua mente usa uma defesa clássica: ela projeta esse chicote para fora. Ela carimba o julgamento na testa dos outros e do analista para não ter que admitir que quem não se aceita é ela mesma.

 

A pioneira no mapeamento das formas mais primitivas desse mecanismo foi a psicanalista Melanie Klein. Na obra “Inveja e Gratidão e outros trabalhos”, no capítulo "Notas sobre alguns mecanismos esquizoides", Página 22, Parágrafo 2, ela descreve a violência interna que força essa projeção:

 

"Na medida em que o ego é impelido a se livrar de impulsos e objetos internos maus (persecutórios), ele os projeta. Desse modo, o ataque contra as pessoas a quem essas partes más foram projetadas é impelido por um desejo de controlá-las e de evitar o perigo de o ego ser atacado por elas."

 

Na análise, a pessoa acusa o analista de fazer um juízo de valor porque é incapaz de suportar o próprio juízo interno; ela ataca o analista preventivamente para tentar controlar o perigo de ser destruída por sua própria rigidez psíquica que foi projetada na figura do terapeuta.

Na Transferência e na Repetição do Passado, o analista nunca é apenas o analista; ele ocupa temporariamente o lugar de figuras importantes da história do sujeito.

 

Se a pessoa cresceu em um ambiente com pais muito críticos, exigentes ou que só davam afeto se ela fosse "perfeita", ela fatalmente transferirá essa dinâmica para a sessão. Ela olhará para o analista e enxergará aquele pai ou aquela mãe que apontava o dedo.

 

Ao monitorar cada gesto do terapeuta procurando um "juízo de valor", o analisando está apenas revivendo a infância e tentando se defender preventivamente do trauma da rejeição.

Para compreender como esse fenômeno se instala e se repete de forma idêntica à neurose original, recorremos ao psicanalista Heinrich Racker, uma das maiores autoridades mundiais no estudo da dinâmica transferencial.

 

Em sua obra-prima Estudos sobre Técnica Psicanalítica, no Capítulo 2 (Considerações sobre a Transferência), Página 41, Parágrafo 3, Racker esclarece a natureza dessa ilusão clínica:

 

"O analisando revive na transferência suas antigas situações conflitivas; reage diante do analista com a mesma ansiedade e com os mesmos mecanismos de defesa que usou em sua infância face aos seus pais, investindo o analista com a mesma autoridade e o mesmo poder de julgamento e punição..."

 

Na Resistência (o "atacar para não investigar"), fazer juízo de valor do analista é uma excelente estratégia do ego para paralisar o tratamento. Pense bem: se a pessoa foca em analisar as intenções, os olhares ou as supostas opiniões do analista, ela desvia o foco do que realmente importa: ela mesma. Vira um jogo de poder: "Eu não preciso olhar para a minha dor porque estou ocupado demais avaliando se você está me julgando". É uma tentativa de desestabilizar o analista para que o processo não chegue perto das verdades incômodas do inconsciente.

 

A sistematização de como o ego ergue essas barreiras para se defender do progresso terapêutico foi brilhantemente realizada por Anna Freud. Em seu livro clássico O Ego e os Mecanismos de Defesa, no Capítulo 2 (A Aplicação da Técnica Analítica ao Estudo das Instituições Psíquicas), Página 26, Parágrafo 1, ela detalha a metamorfose da resistência:

 

"A resistência à interpretação do analista assume a forma de uma atividade defensiva do ego contra os seus próprios impulsos inconscientes. O paciente transforma o analista no representante da proibição interna e projeta nele a hostilidade que originalmente pertencia ao seu próprio superego rígido..."

 

Aqui, você pode me perguntar: E como o analista maneja isso sem cair na armadilha? O erro técnico fatal aqui seria o analista se justificar ou tentar ser "bonzinho", dizendo frases como: "Não, veja bem, eu não estou te julgando..." No momento em que o analista se justifica, ele valida a paranoia do paciente, aceita o papel de réu e entra formalmente no tribunal do doente. O manejo clínico correto é devolver o espelho, fazendo o sujeito confrontar a própria fala.

 

Essa devolução visa romper o que Jacques Lacan chamava de plano do Imaginário (o plano do espelho, do ego e das rivalidades) para introduzir o sujeito na dimensão do Simbólico (a dimensão da verdade do seu desejo). Em seu texto fundamental "Agressividade em Psicanálise", publicado em seus Escritos, Página 116, Parágrafo 4, Lacan adverte sobre o perigo de o analista aceitar o jogo de espelhos do paciente:

 

"É claro que uma tal intervenção do analista, se se fizesse sob a forma de uma retaliação ou de uma justificação moralizante, reverteria a situação para o plano da pura rivalidade imaginária. O analista deve esvaziar-se dessa exigência de julgamento para que o sujeito possa reencontrar a alteridade radical de sua própria palavra."

 

A pessoa que reclama de juízo de valor fazendo juízo de valor está, no fundo, gritando por socorro contra as próprias certezas tirânicas de seu mundo interno. O papel da análise é ajudá-la a perceber que o tribunal onde ela é ré e o analista é o juiz só existe dentro de sua própria cabeça. Quando o analisando compreende isso e assume a autoria de sua fala, a necessidade neurótica de atacar e de se defender finalmente cai.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

·       FREUD, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa. Tradução de Francisco de Mello. 14. ed. Rio de Janeiro: Artmed, 2006.

·       KLEIN, Melanie. Inveja e Gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Tradução de Lúcia Mattos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991. (Coleção Obras Completas de Melanie Klein, Volume III).

·       LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

·       RACKER, Heinrich. Estudos sobre Técnica Psicanalítica. Tradução de Elvio Fachinelli. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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