Você já sentiu que está vivendo uma vida que não é sua, apenas para não decepcionar alguém que você nem tem certeza se ama?
A verdade contraintuitiva é que o seu "Ego" não nasceu com você; ele foi emprestado — e muitas vezes sequestrado — pelas expectativas daqueles que te cercam.
A maioria das patologias modernas (burnout, depressão e ansiedade...) não são falhas químicas isoladas, mas o colapso de um Ego que tentou ser um "bom objeto" para o mundo e esqueceu de existir para si mesmo. Entenda... Eu não estou aqui para te dar dicas de autoajuda, mas para dissecar a estrutura técnica da sua identidade.
Acreditamos que somos indivíduos autônomos. No entanto, a clínica nos mostra que o "Eu" é uma colagem de desejos alheios. Desde o nascimento, o bebê não se vê; ele vê o rosto da mãe. Como Donald Winnicott pontua em sua obra clássica, se esse rosto é um espelho distorcido ou preocupado com suas próprias angústias, o Ego do bebê cresce alienado:
"O que o bebê vê quando olha para o rosto da mãe? Sugiro que, normalmente, o que o bebê vê é ele mesmo. Em outras palavras, a mãe está olhando para o bebê e o que o seu rosto transmite está em relação direta com o que ela vê ali." (Winnicott, D. O brincar e a realidade (1971), p. 154, parágrafo 2).
O "Eu", portanto, é constituído por uma série de identificações estruturadas na infância. Na psicanálise contemporânea, entendemos que o Ego gasta uma energia monumental (Libido) para manter a fachada perante os "Outros". Anna Freud, detalha que o Ego se defende do medo da aniquilação social utilizando defesas severas para aplacar a angústia diante das exigências do mundo externo. Quando você diz "sim" querendo dizer "não", o seu Ego está usando a Formação Reativa ou a Identificação com o Agressor para sobreviver ao medo de ser abandonado:
"O ego se defende contra a dor ou contra a ansiedade despertada por estímulos objetivos através de uma alteração na sua própria estrutura, submetendo-se voluntariamente a exigências que de outro modo seriam intoleráveis." (Freud, A. O Ego e os mecanismos de defesa (1936), p. 108, parágrafo 3).
E temos a Visão Neuropsicanalítica, o Circuito do Reconhecimento... O nosso cérebro possui o que chamamos de Default Mode Network (DMN) — a rede neural do "Eu". No entanto, essa rede é altamente modulada pelo Córtex Pré-Frontal Medial, que processa informações sobre... os outros.
Biologicamente, o cérebro não distingue totalmente o "meu dano" do "dano social". Mark Solms, um dos maiores nomes da neuropsicanálise mundial, demonstra que o Ego mapeia a sobrevivência afetiva através de imperativos biológicos profundos. A rejeição do "Outro" ativa as mesmas áreas da dor física no sistema nervoso porque a exclusão social ameaça a integridade do organismo:
"Os sentimentos regulam a homeostase do cérebro. Os sistemas de apego e pânico social operam sob os mesmos princípios de sobrevivência que a fome e a sede; a perda do objeto de apoio social desencadeia uma resposta biológica de dor real." (Solms, M. O manancial oculto (2021), p. 284, parágrafo 1).
Essa dinâmica biológica é o que António Damásio chama de regulação homeostática, onde o cérebro submete o comportamento individual à aprovação do grupo para garantir o equilíbrio interno:
"A homeostase social não é uma escolha cultural abstrata; é uma extensão direta da regulação biológica básica que molda as respostas do cérebro para manter o organismo conectado e protegido pelo tecido social." (Damásio, A. O erro de Descartes (1994), p. 192, parágrafo 4).
Assim, a análise não serve para "fortalecer" um Ego artificial, mas para torná-lo consciente de suas algemas. Quando você entende que o seu Ego é uma construção feita de retalhos do olhar alheio, você ganha a liberdade de escolher quais peças quer manter. O "Outro" deixará de ser um juiz para se tornar apenas um espectador da sua verdadeira essência.
Este conhecimento que você acabou de ler é apenas o mapa. A viagem, porém, só acontece no divã. Se você cansou de ser um reflexo e quer descobrir quem habita por trás dessa máscara social, convido você para a Psicanálise Clínica... que é o lugar onde você tem permissão para deixar de ser "os outros".
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DESTE VÍDEO:
DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
FREUD, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa (1936). Tradução de Francisco Settineri. Porto Alegre: Artmed, 2006.
SOLMS, Mark. O Manancial Oculto: A Jornada da Neuropsicanálise em Busca da Origem da Consciência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2021.
WINNICOTT, Donald W. O Brincar e a Realidade (1971). Tradução de J. O. A. Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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