Depois de mais de três décadas escutando o sofrimento humano tanto no ambiente acolhedor do divã quanto nos corredores de grandes corporações, aprendi que o trabalho é uma das formas mais poderosas que o ser humano tem para se situar no mundo. O trabalho nos dá identidade, nos conecta com o outro e nos desafia. Contudo, nos últimos anos, a conversa sobre saúde mental nas empresas tomou um rumo preocupante. Assistimos a uma explosão de discussões sobre os chamados "riscos psicossociais", muitas vezes misturados de forma confusa com regras de ergonomia (como as Normas Regulamentadoras NR-1 e NR-17). Mas, por trás desse vocabulário técnico e bonito, esconde-se um paradoxo que a nossa prática clínica não pode mais ignorar.
Se, por um lado, existem empresas com metas abusivas que esmagam a mente do trabalhador e provocam o Burnout autêntico, por outro, vemos surgir um fenômeno novo: o uso de diagnósticos psicológicos como um "escudo" para camuflar o puro e simples descompromisso, o despreparo técnico e a falta de maturidade emocional. Como psicanalista, o meu papel não é passar a mão na cabeça do paciente, mas ajudá-lo a enxergar a verdade. E a verdade é que, para muitas pessoas, falar de saúde mental virou a desculpa perfeita para exigir todos os direitos do mundo enquanto se esquecem dos deveres mais básicos. Precisamos, portanto, separar o esgotamento real da pura fuga das responsabilidades da vida adulta.
1. A Armadilha da Ergonomia: O Psiquismo Não Tem Botão de Ajuste
O primeiro grande erro do mercado corporativo atual é tentar tratar as dores da mente humana como se fossem problemas de engenharia ou de postura. As consultorias de Recursos Humanos e os comitês de segurança tentam encaixar as relações afetivas e as pressões diárias dentro das caixas da ergonomia. A ergonomia física é fundamental para que o corpo não adoeça; uma cadeira ajustável ou uma tela na altura certa evitam lesões reais. Mas o sofrimento psíquico não funciona nessa mesma engrenagem. Não existe um "botão de ajuste" na mente humana que elimine o desconforto de receber uma crítica, a frustração de não ser promovido ou a pressão por entregar um resultado difícil.
Quando as empresas prometem um ambiente de trabalho totalmente livre de tensões emocionais, elas criam uma promessa falsa e infantilizadora. O psiquismo humano se desenvolve justamente através do conflito e da superação de obstáculos. O sofrimento no trabalho muitas vezes não vem do desenho da tarefa em si, mas da incapacidade do sujeito de lidar com o fato de que ele não é o centro do universo. Ao tentar higienizar o ambiente corporativo contra qualquer tipo de cobrança, o mercado acaba retirando do trabalhador a chance de criar casca, de evoluir e de amadurecer, transformando os escritórios em grandes berçários onde qualquer contrariedade é batizada de trauma.
2. O Ganho Secundário do Sintoma: Quando o Diagnóstico Vira Escudo
Na clínica psicanalítica, sabemos que as pessoas não se apegam aos seus sintomas por acaso; existe o que Freud chamou de "ganho secundário", ou seja, uma vantagem oculta em se manter doente ou vulnerável. No cenário atual, os diagnósticos de ansiedade, depressão e Burnout foram capturados por uma lógica perversa. Diante de uma cobrança legítima por resultados, ou quando exposto à sua própria falta de conhecimento técnico para resolver um problema complexo, o profissional despreparado ou mal-intencionado não busca estudar ou melhorar. Em vez disso, ele aciona o discurso da vitimização.
É aqui que o diagnóstico deixa de ser uma ferramenta de cura e passa a ser uma moeda de troca para garantir o melhor salário com o menor esforço possível. Se o gestor aponta um erro grave, ele é chamado de "tóxico". Se a meta exige foco e dedicação extra, o trabalhador alega que a cultura é "adoecedora". Esse movimento é perigoso porque esvazia o sofrimento de quem realmente está com Burnout — aquele colaborador dedicado, que se entrega além do limite e entra em colapso justamente por não saber dizer não. Colocar o oportunista que se recusa a trabalhar no mesmo patamar do doente real é uma injustiça clínica e gerencial. Como nos alerta Christophe Dejours, uma das maiores autoridades mundiais em saúde no trabalho:
"O sofrimento não é uma doença. Ele é o sinal de uma luta que o sujeito trava com a realidade do trabalho para transformá-la e, ao mesmo tempo, se transformar." (Dejours, 2015, parágrafo 2, página 42)
Quando o profissional se recusa a travar essa luta com a realidade, preferindo o conforto de um atestado médico sem fundamento, ele sabota a própria evolução e sobrecarrega os colegas que de fato trabalham.
3. A Visão da Neuropsicanálise: Circuitos de Busca, Dopamina e a Frustração do Real
Para entender esse comportamento sem cair em julgamentos morais superficiais, precisamos cruzar a psicologia clínica com o funcionamento das nossas redes neurais. A neuropsicanálise contemporânea, com base nos estudos pioneiros de Jaak Panksepp e Mark Solms, mapeou os sistemas emocionais básicos do cérebro. Um dos mais importantes é o chamado Sistema de Busca (Seeking System), localizado nas vias dopaminérgicas. É esse circuito que nos dá a energia, a curiosidade e o impulso para sair da cama, aceitar desafios, estudar e construir soluções no trabalho.
O cérebro saudável sente prazer na busca, no processo de resolver problemas difíceis e na conquista de metas elevadas após o esforço prolongado. No entanto, o circuito de recompensa dopaminérgica precisa de um chão de realidade para se consolidar. Quando um profissional se acostuma a uma cultura de gratificação imediata e sem esforço, típica do ambiente digital moderno, a sua tolerância à frustração despenca a níveis alarmantes. Diante do primeiro obstáculo ou da primeira meta agressiva que exige resiliência, o cérebro desse indivíduo não ativa o sistema de busca; ele entra em um curto-circuito de ameaça e pânico fake.
A paralisia que se segue não é Burnout; é a incapacidade biológica e psíquica de lidar com o atraso da recompensa. O indivíduo quer o bônus financeiro e o reconhecimento imediato, mas se recusa a passar pelo estresse saudável do aprendizado. Ele quer o prêmio sem correr a maratona e usa a queixa de esgotamento para mascarar uma profunda preguiça dopaminérgica e uma total falta de estofo neural para lidar com o mundo real.
4. A Recusa da Castração e o Esquecimento do Dever
Viver em sociedade e construir uma carreira exige o que Sigmund Freud chamou de transição do Princípio do Prazer (fazer apenas o que traz satisfação imediata) para o Princípio da Realidade (aceitar o sacrifício e o esforço para colher frutos a longo prazo). O ambiente de trabalho é, por excelência, o lugar onde somos confrontados com a lei, com as regras do mercado e com a necessidade de entregar valor antes de exigir retorno. Em termos simples, o trabalho é o lugar onde descobrimos que o mundo não gira em torno das nossas vontades. Freud foi cirúrgico ao abordar essa necessidade em sua obra-prima sobre as estruturas sociais:
"Não se pode ignorar em que medida a civilização é construída sobre a renúncia pulsional..." (Freud, 2010, parágrafo 1, página 52)
O que vemos hoje nas corporações é uma tentativa infantil de ignorar essa renúncia. Temos uma geração de profissionais com os direitos totalmente hipertrofiados na ponta da língua, mas com uma amnésia completa em relação aos seus deveres. O sujeito exige flexibilidade total, suporte psicológico da empresa, salários acima da média de mercado e feedbacks gentis, mas desaba ou se revolta quando o contrato de trabalho exige o cumprimento de prazos apertados e metas de alta performance. Há uma recusa em aceitar o peso da vida adulta. O profissional passa a enxergar a empresa não como um parceiro de negócios para quem ele deve entregar um serviço de excelência, mas como um pai ou uma mãe superprotetora que tem a obrigação de sustentá-lo e poupá-lo de qualquer contrariedade.
5. A Cegueira Coletiva e a Desumanização pelas Telas
Esse comportamento infantilizado e descompromissado ganha força quando o indivíduo se mistura à massa digital. Nos grupos de mensagens corporativas, em fóruns e redes sociais como o LinkedIn, assiste-se à criação de uma verdadeira "cegueira coletiva". Criou-se uma narrativa em grupo onde a empresa é sempre o monstro opressor e o funcionário é sempre a vítima indefesa. Quando o indivíduo entra nessa onda, a sua percepção de responsabilidade individual simplesmente desaparece. Freud já alertava sobre como o comportamento de grupo altera a nossa mente:
"Na massa, o indivíduo experimenta, por meio da influência dela, uma alteração frequentemente profunda em sua atividade anímica" (Freud, 2011, parágrafo 3, página 34)
Sob o efeito dessa influência do grupo, o trabalhador sente-se autorizado a sabotar silenciosamente a empresa, a entregar o mínimo possível e a usar atestados médicos em série, pois sente que está apenas se defendendo de um sistema cruel.
Essa dinâmica piorou drasticamente com a virtualização do trabalho. Quando a tela do computador ou do celular substitui o contato olho no olho com o cliente, com o chefe e com os colegas, as relações humanas perdem a sua substância real. O outro deixa de ser uma pessoa de carne e osso que depende do meu trabalho e vira apenas um avatar na tela. Essa distância digital desumaniza o ambiente corporativo e facilita a má-fé: torna-se muito fácil deixar de entregar um projeto importante ou ignorar um prazo crucial quando o impacto desse erro não é visto de perto. O compromisso ético se desfaz na mesma velocidade em que fechamos uma aba do navegador.
6. A Ilusão do Espelho e o Horror da Realidade
Para aprofundarmos essa análise, precisamos entender como as redes sociais e o culto à autoimagem criaram uma falsa sensação de competência. Jacques Lacan explicou que nós construímos o nosso "eu" com base na imagem que vemos refletida no outro — um processo que começa na infância e dura a vida toda. Lacan usou uma expressão precisa para descrever o encantamento com essa imagem:
"...a assunção jubilatória de sua imagem especular..." (Lacan, 1998, parágrafo 3, página 97)
No mundo corporativo de hoje, esse deslumbramento com o espelho se traduz no profissional que gasta mais tempo construindo um perfil perfeito e glamoroso na internet do que de fato estudando e trabalhando. Ele se apaixona pela sua própria imagem de "executivo de sucesso", "especialista" ou "líder inovador".
O problema é que essa promessa de perfeição visual desaba quando bate de frente com a realidade prática do dia a dia da clínica ou da empresa. Quando o cliente faz uma cobrança dura, quando o projeto falha ou quando a liderança exige uma entrega técnica profunda que o sujeito não sabe fazer, a ilusão cai por terra. É nesse momento exato que surge o que a psicanálise chama de Inquietante (o horror de ver o que era familiar se transformar em um pesadelo). Como bem definiu Freud:
"...aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido de longa data, ao que é familiar desde muito tempo" (Freud, 2010, parágrafo 1, página 342)
A cobrança legítima por desempenho, que deveria ser algo familiar e esperado em qualquer profissão, passa a ser vivida pelo sujeito como um ataque monstruoso à sua integridade. Em vez de admitir o seu despreparo técnico e correr atrás do prejuízo, o profissional prefere adoecer discursivamente, transformando a sua incompetência prática em um quadro clínico intocável por lei.
7. Devolver a Implicação Subjetiva: O Verdadeiro Caminho para a Saúde Mental
Diante desse diagnóstico que escancara as feridas do mercado atual, qual deve ser o papel das lideranças, dos gestores de Recursos Humanos e de nós, profissionais de saúde mental que atuamos nas organizações? O grande erro das empresas tem sido ceder ao medo do processo judicial ou do cancelamento virtual. Ao criarem "comitês de felicidade", salas de jogos e mimos corporativos para tentar aplacar o mal-estar dos funcionários, as instituições muitas vezes acabam alimentando a própria neurose infantil do colaborador mal-intencionado, validando a ideia de que o trabalho não deve ter cobranças.
A verdadeira ética do cuidado e a proteção da saúde mental exigem uma postura firme, baseada no que Lacan chamou de encarar as dores e desafios da mente como aprendizado. Em suas palavras:
"Os sofrimentos da neurose e da psicose são, para nós, a escola das paixões da alma..." (Lacan, 1998, parágrafo 1, página 103)
Se o sofrimento e o estresse são a escola da alma, a solução não é fechar a escola, mas ensinar o aluno a estudar. Diante da queixa de esgotamento, a primeira pergunta que o gestor ou o terapeuta deve fazer não é "como a empresa pode te poupar?", mas sim: "Qual é a sua parcela de responsabilidade no problema do qual você se queixa?".
É fundamental separar o joio do trigo para salvar o ambiente de trabalho. O colaborador que está sofrendo de um Burnout real, esmagado pelo excesso de demandas devido ao seu alto compromisso, precisa de acolhimento médico, pausa, reestruturação de processos e apoio incondicional. Por outro lado, o profissional parasita, que usa atestados em série para fugir das metas, que sabota as entregas e que usa o selo dos "riscos psicossociais" como desculpa para a sua indolência, precisa encontrar o limite da lei e da demissão. Exigir o cumprimento dos deveres e confrontar o sujeito com os seus resultados não é opressão; é o único ato de respeito capaz de retirar esse indivíduo da infância tardia e devolvê-lo à dignidade da vida adulta.
Conclusão
O mal-estar no ambiente de trabalho moderno não é uma rua de mão única. Seria de uma leviandade sem tamanho ignorar que existem corporações predatórias, obcecadas por planilhas, que moem a saúde dos seus funcionários diariamente. No entanto, é de uma conivência igualmente perigosa ignorar que o discurso da saúde mental virou o esconderijo perfeito para o oportunismo e a incompetência técnica.
O Burnout real é uma condição grave que destrói vidas; justamente por isso, ele não pode ser banalizado e transformado em desculpa para quem simplesmente não quer trabalhar ou não se preparou para o mercado. Enquanto as empresas e os profissionais não entenderem que a verdadeira saúde mental se constrói no equilíbrio exato entre o direito de ser cuidado e a obrigação inegociável de entregar resultados, continuaremos a assistir ao colapso do laço de confiança no ambiente corporativo. O trabalho cura quando nos responsabiliza; ele adoece quando nos permite usar o sofrimento como disfarce para a nossa própria fuga.
Referências Bibliográficas
- [1] DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 2015.
- Citação no texto: "O sofrimento não é uma doença. Ele é o sinal de uma luta que o sujeito trava com a realidade do trabalho para transformá-la e, ao mesmo tempo, se transformar." (Dejours, 2015, parágrafo 2, página 42).
- [2] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
- Citação no texto: "Não se pode ignorar em que medida a civilização é construída sobre a renúncia pulsional..." (Freud, 2010, parágrafo 1, página 52).
- [3] FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
- Citação no texto: "Na massa, o indivíduo experimenta, por meio da influência dela, uma alteração frequentemente profunda em sua atividade anímica" (Freud, 2011, parágrafo 3, página 34).
- [4] LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
- Citação no texto: "...a assunção jubilatória de sua imagem especular..." (Lacan, 1998, parágrafo 3, página 97).
- [5] FREUD, Sigmund. O Inquietante (1919). In: Obras Completas, Volume 14: História de uma neurose infantil, O inquietante e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
- Citação no texto: "...aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido de longa data, ao que é familiar desde muito tempo" (Freud, 2010, parágrafo 1, página 342).
- [6] LACAN, Jacques. A agressividade em psicanálise (1948). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
- Citação no texto: "Os sofrimentos da neurose e da psicose são, para nós, a escola das passions da alma..." (Lacan, 1998, parágrafo 1, página 103).
- [7] SOLMS, Mark; PANKSEPP, Jaak. The "Id" knows more than the "Ego" admits: Neuroanalytic reflections on the affections. Brain Sciences, London, v. 2, n. 2, p. 147-175, 2012.
- Contexto no texto: Fundamentação dos Circuitos Dopaminérgicos e do Sistema de Busca (Seeking System) aplicados à paralisia por análise corporativa e baixa tolerância à frustração no Real.
Literatura Avançada de Apoio:
- KANDEL, Eric R. Em busca da mente: a biologia do pensamento e do comportamento. Rio de Janeiro: Vienas, 2009.
- PANKSEPP, Jaak. Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions. New York: Oxford University Press, 1998.
- SOLMS, Mark. O sentimento de si mesmo: a neurobiologia da consciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
Deixe um comentário