O Jodô como caminho para a saúde mental

O Jodô como caminho para a saúde mental

O Jodô como caminho para a saúde mental

 

Uma leitura psicanalítica clínica e institucional das manifestações somáticas em crianças, jovens, adultos e idosos.

 

Muitas vezes na vida, nós passamos por dores e sofrimentos que simplesmente não conseguimos colocar em palavras. É nessa hora que a nossa boca se cala, mas o nosso corpo começa a falar por outros caminhos. No esporte, especialmente no judô — que foi batizado por seu criador, Jigoro Kano, como "o caminho da suavidade" (Ju-Do) —, o tatame deixa de ser apenas um espaço de disputa física e se transforma em um espelho gigante das nossas emoções e conflitos invisíveis.

 

1. Ceder, ser flexíveis e aceitar a nossa própria queda.

 

Para praticar judô de verdade, o nosso psiquismo precisa aceitar um desafio muito difícil: para conseguir derrubar o colega, nós precisamos ser capazes de ceder, ser flexíveis e aceitar a nossa própria queda. É um jogo que mexe diretamente com a forma como lidamos com as outras pessoas e com as nossas próprias fraquezas. Quando estamos muito rígidos por dentro — guardando mágoas, traumas que nunca superamos ou nos cobrando demais para sermos perfeitos —, o nosso corpo perde essa capacidade de ser suave e de se moldar ao movimento.

 

A dor física e os machucados que surgem nos treinos não acontecem apenas por acaso ou por falta de sorte. Na maioria das vezes, eles são o limite físico das nossas emoções. Quando a nossa mente não consegue dar contorno ou resolver uma angústia por meio da conversa, o inconsciente começa a "escrever" essa dor diretamente na nossa carne. É exatamente isso que o psicanalista francês Jacques Lacan quis dizer quando falou sobre como o inconsciente deixa marcas em nós:

 

"A letra é 'rasura de traço algum que seja anterior [...]. Produzi-la é reproduzir esta metade ímpar com que o sujeito subsiste'." (Lacan, 1971/2003, p. 21, parágrafo 3)

 

No judô, as marcas roxas na pele, as articulações que vivem saindo do lugar e as dores musculares que nunca passam funcionam exatamente como essa "letra": são cicatrizes emocionais cavadas na carne por uma energia que não encontrou saída pelas palavras. O corpo do praticante escreve, no tatame, um texto que ele mesmo ainda não aprendeu a ler. A seguir, vamos ver como essas marcas se manifestam de formas diferentes em cada idade.

 

2. Crianças: O Toque do Outro e o Medo de Cair (A Bolha de Proteção)

 

Na infância, muitos pais procuram o judô com a esperança de que o esporte funcione como um "corretor de comportamento" ou um "disciplinador" para os filhos. Porém, sob o olhar da psicanálise, o tatame é o palco onde a criança está descobrindo onde termina o seu próprio corpinho e onde começa o corpo do outro.

 

Nessa fase em que a personalidade da criança ainda está se formando, a disputa pela pegada na gola do quimono do colega (Kumi-kata) mexe diretamente com o que o psicanalista Didier Anzieu chamou de Eu-Pele. Imagine que a nossa pele funciona como uma "bolha de proteção" invisível que protege a nossa mente do mundo lá fora. Quando essa bolha apresenta falhas — porque a criança vive em um ambiente familiar muito invasivo ou tem muita dificuldade de se separar da mãe —, o toque físico do treino de judô deixa de ser uma brincadeira e passa a ser sentido como uma agressão violenta. Anzieu explica o que acontece quando essa proteção falha:

 

"Na falta de uma descarga satisfatória, este envelope de excitação erógeno pode se transformar em envelope de angústia." (Anzieu, 1985/1989, p. 118, parágrafo 4)

 

No tatame, quando esse limite da pele é invadido, a angústia da criança aparece na forma de problemas de pele reais: brotorejas repentinas, dermatites ou alergias misteriosas logo após treinos mais intensificados. A pele inflama fisicamente para tentar erguer a barreira de proteção que a mente da criança ainda não sabe como impor conversando.

 

Outro ponto muito comum é a recusa em cair. Para aprender judô, a primeira coisa que se ensina é a cair (Ukemi), o que exige que a criança solte o corpo e confie no chão. No entanto, o medo de cair na infância quase nunca é medo de se machucar; é o pavor de perder o controle e sentir que não há ninguém para segurá-la. Essa resistência do corpo em se soltar se transforma em problemas no estômago e na barriga: dores fortes, refluxos ou enjoos pouco antes de ir para o treino. O estômago da criança tenta "recusar" e colocar para fora a cobrança exagerada de desempenho que ela sente dos pais ou do professor, denunciando que ela não consegue digerir aquela pressão.

 

Por fim, temos a garganta e o famoso grito do judô, o Kiai. Crianças que são muito silenciadas em casa ou que são criadas sob regras rígidas demais costumam apresentar afonias constantes, pigarros ou travamento da garganta na hora de gritar. O corpo dela "trava" o grito porque colocar para fora a força e a agressividade necessárias para derrubar o colega é sentido por ela como um erro grave, algo que faria com que as pessoas que ela ama ficassem bravas com ela.

 

3. Jovens: A Explosão de Energia e a Musculatura Travada (Adolescência)

 

A adolescência é uma fase de verdadeira revolução. O jovem é invadido por uma montanha-russa de hormônios, impulsos sexuais e agressividade que ele ainda não sabe muito bem onde colocar. O judô funciona como um excelente canalizador para essa energia toda, mas também é o lugar onde o adolescente escreve na carne as suas piores crises.

 

Nesse período, o jovem costuma usar os seus músculos não de forma leve para lutar, mas sim como uma armadura de ferro para se defender. O medo de passar vergonha na frente dos amigos ou de parecer fraco faz com que o adolescente lute "duro" e travado. Essa rigidez extrema gera dores musculares crônicas nos ombros, nas costas e no pescoço.

 

O jovem prefere estourar um ligamento ou machucar feio uma articulação a "se entregar" e aceitar o golpe do colega. O machucado surge aqui como o preço que o corpo paga para não passar pela humilhação de ser jogado no chão de costas. O sintoma físico funciona como uma parede de pedra contra sentimentos que o jovem não consegue controlar. Para entender esse comportamento defensivo exagerado, recorremos ao criador da psicanálise, Sigmund Freud:

"Chamamos de traumáticas as excitações externas que são fortes o suficiente para romper o escudo protetor contra estímulos." (Freud, 1920/2010, p. 182, parágrafo 1)

 

Para o adolescente, ser derrubado ou imobilizado é sentido como um golpe terrível que ameaça destruir a sua imagem de "forte" e "invencível". Para se proteger desse "trauma" imaginário, ele contrai os músculos até o limite de romper as próprias fibras.

 

Isso fica muito claro nas lutas de solo, quando um colega deita por cima e o imobiliza (Osaekomi). Ficar preso de costas no chão, sem conseguir se mexer sob o peso do outro, coloca o jovem diante de uma sensação de impotência total. É muito comum que adolescentes mais ansiosos tenham crises de falta de ar, aperto no peito e taquicardia durante o treino de solo. O peito dele trava porque aquela imobilização física faz com que ele reviva a sensação sufocante de controle que ele tenta desesperadamente escapar em sua vida pessoal.

 

4. Adultos: A Cobrança por Sucesso e o Esgotamento (Burnout)

 

O adulto traz para o treino a carga pesada das suas preocupações diárias e, principalmente hoje em dia, o estresse asfixiante do trabalho. O tatame, que deveria ser um momento de descanso e diversão, muitas vezes acaba virando o lugar onde o corpo cobra o preço do esgotamento mental sob a forma de dor.

 

No adulto, a região do pescoço e dos ombros é a que mais sofre. No judô, a luta para conseguir segurar o quimono do oponente (Kumi-kata) exige muita força nos braços e no pescoço. Se esse adulto passa o dia engolindo sapos no escritório, sem poder dizer "não" para o chefe para não perder o emprego, essa opressão emocional se junta à tensão do treino.

 

O resultado são torcicolos frequentes, dores de cabeça constantes e hérnias de disco no pescoço que impedem o sujeito de continuar treinando. O corpo dele realiza uma "conversão": o que ele não pode falar e rejeitar no trabalho, o pescoço dele rejeita no tatame, impedindo-o fisicamente de dobrar a cabeça ou de olhar para o lado diante das demandas alheias.

 

Ao mesmo tempo, as dores nas costas (na região lombar) mostram a fantasia que muitos adultos têm de que "precisam carregar o mundo nas costas sozinhos" (carreira, dinheiro, família, casa). No judô, quando esse adulto tenta levantar e jogar o colega usando uma coluna que já está esmagada pelo peso emocional de suas obrigações, as costas travam.

 

Uma crise de coluna ou o pinçamento de um nervo funcionam como uma ordem direta do inconsciente: "Pare!". É uma queda literal que o corpo provoca para obrigar o adulto a deitar e parar de carregar o peso que ele, emocionalmente, não aguenta mais sustentar. Na clínica da GuinaPsi, nós escutamos a dor nas costas do judoca adulto não como um problema de postura, mas como o limite da sua mente tentando dizer que ele não é de ferro.

 

5. Idosos: Aceitar o Tempo e a Sabedoria da Suavidade (Velhice)

 

Para os praticantes mais velhos (os atletas seniores ou Masters), o tatame do judô é o espaço de encontro direto com o envelhecimento e com a perda natural da força física. É o momento de fazer a transição de lutar usando os músculos para lutar usando a mente e a técnica pura.

 

Nessa fase, as dores crônicas nas articulações (joelhos, ombros e dedos das mãos tortos por anos de treino) não são apenas problemas de reumatismo ou desgaste de cartilagem. Elas são o diário de bordo de uma vida inteira de impactos. A dor nas articulações do idoso mostra a dificuldade emocional de aceitar as limitações do próprio corpo. Quando o praticante insiste em treinar com a mesma agressividade e força de quando tinha 20 anos, negando o passar do tempo, ele acaba sofrendo lesões muito graves.

 

Essa teimosia em aceitar o declínio físico é uma forma de recusar a realidade da vida. A dor articular funciona aqui como um alerta do corpo. O idoso é chamado pela dor a mudar a sua postura: ele precisa aprender a lutar não pela força bruta, mas pela precisão do tempo certo, aproveitando o desequilíbrio do oponente com suavidade (Ju).

 

Além disso, a pele do idoso — que vai ficando mais fina e cheia de marcas roxas pelo atrito do quimono — lembra a ele sobre a fragilidade da sua própria vida e a proximidade do fim biológico. Essa fragilidade o convida a ouvir o próprio corpo de um jeito mais carinhoso. Ele precisa aprender a ceder no combate, aceitando a queda não como uma derrota ou vergonha, mas como uma lei natural da física e do tempo. É o encontro definitivo com o que Jacques Lacan chamou de Real em nossa existência:

 

"A repetição exige o novo... a tuché é o encontro com o real. O real está para além do automaton, do retorno, da insistência dos signos." (Lacan, 1964/1998, p. 56, parágrafo 2)

 

Para o judoca idoso, cada queda no tatame deixa de ser um movimento mecânico e repetitivo (automaton) e passa a ser uma conversa sincera com o Real da sua própria idade (tuché), exigindo que ele aprenda uma nova lição sobre o que significa perder, envelhecer e, mesmo assim, continuar no caminho.

 

6. Resumo das Dores para a Escuta na GuinaPsi:

 

Área do Corpo

O que acontece no Judô

O que a Mente está tentando Dizer

Como a Pulsão atua

Pele / Tecidos

Alergias após o treino, coceiras, machucados e hematomas fáceis

Falha na "bolha de proteção" do corpo; o toque ou a pegada do outro é sentida como uma invasão violenta.

A energia da pele protetora se transforma em angústia na superfície.

Garganta / Voz

A voz não sai no grito (Kiai), pigarros ou dores no pescoço

Medo de colocar a agressividade para fora; o sujeito engole o seu desejo para não desagradar os outros.

Bloqueio da energia na hora de se expressar ativamente.

Peito / Pulmão

Sensação de sufocamento e pânico quando está imobilizado por baixo

Medo profundo de perder o controle total da situação; sensação de ser engolido ou esmagado pelas regras do Outro.

Choque direto com o limite da nossa força e com a nossa fragilidade.

Estômago / Barriga

Enjoos antes do treino, queimação, cólicas fortes

Recusa em aceitar a pressão excessiva por vitórias; dificuldade em "digerir" a cobrança ou a frustração de perder.

O corpo tenta vomitar e expulsar a cobrança do ambiente externo.

Tônus Muscular

Músculos das costas e trapézio travados, lesões por não se soltar

Rigidez emocional; o praticante prefere se machucar fisicamente do que aceitar a queda e se mostrar frágil.

A musculatura vira uma armadura rígida contra as surpresas da vida.

 

Na abordagem da GuinaPsi, a dor física e os machucados no tatame nunca devem ser tratados apenas com gelo, massagens ou remédios para "voltar a treinar rápido". A dor é o alarme que protege o sujeito de uma dor mental ainda maior. Silenciar a dor sem escutar o que o inconsciente escreveu naquele músculo é empurrar o paciente para um esgotamento ainda pior. O tatame não inventa os nossos problemas emocionais; ele apenas fornece o giz com o qual o nosso inconsciente desenha as suas verdades na nossa pele.

 

Referências Bibliográficas

 

·       [1] FREUD, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria (1905 [1901]). In: Obras completas, volume 6: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Fragmento da análise de um caso de histeria e outros textos (1901-1905). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

o   Citação utilizada: "Um sintoma histérico necessita, para sua formação, da participação de ambos os lados. Ele não pode surgir sem um certo grau de solicitude somática fornecida por algum processo orgânico no corpo ou a ele dirigido..." (Freud, 1905/2016, p. 174, parágrafo 2).

 

·       [2] LACAN, Jacques. Lituraterra (1971). In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

o   Citação utilizada: "A letra é 'rasura de traço algum que seja anterior [...]. Produzi-la é reproduzir esta metade ímpar com que o sujeito subsiste'." (Lacan, 1971/2003, p. 21, parágrafo 3).

 

·       [3] ANZIEU, Didier. O Eu-Pele (1985). Tradução de Zakie Yazigi Rizkallah. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989.

o   Citação utilizada: "Na falta de uma descarga satisfatória, este envelope de excitação erógeno pode se transformar em envelope de angústia." (Anzieu, 1985/1989, p. 118, parágrafo 4).

 

·       [4] FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras completas, volume 14: Além do princípio do prazer, Psicologia das massas... (1917-1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

o   Citação utilizada: "Chamamos de traumáticas as excitações externas que são fortes o suficiente para romper o escudo protetor contra estímulos." (Freud, 1920/2010, p. 182, parágrafo 1).

 

·       [5] LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

o   Citação utilizada: "A repetição exige o novo... a tuché é o encontro com o real. O real está para além do automaton, do retorno, da insistence dos signos." (Lacan, 1964/1998, p. 56, parágrafo 2).

 

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