No último sábado, 11 de julho de 2026, uma notícia chocou o mundo. Jayden Adams, jogador de futebol de 25 anos da Seleção da África do Sul, foi encontrado sem vida em uma casa na Cidade do Cabo. Sabe o que é mais assustador? Duas semanas antes, ele estava jogando a Copa do Mundo de 2026. Ele era titular nos três jogos da fase de grupos. Ele tinha realizado o sonho que milhões de jovens ao redor do mundo têm.
A polícia está investigando. A causa oficial não foi divulgada, mas jornais do mundo inteiro — BBC, G1, CNN, Forbes — falam em suicídio.
Um cara de 25 anos. No auge. No maior palco do esporte. E, ainda assim, algo dentro dele estava tão silenciosamente destruído que ele não conseguiu pedir ajuda.
A Armadilha do "Sucesso"
Jayden Adams não era um atleta qualquer. Ele veio de uma infância humilde e construiu uma carreira brilhante. Para quem olhava de fora, ele era sinônimo de vitória. Só que a imagem que a gente mostra pro mundo é muito diferente do que a gente sente por dentro.
A gente vive num mundo onde o que importa é o que aparece. Quantas curtidas você tem. Quantos seguidores. Qual título você conquistou. Qual tênis você usa. Qual filtro você usou na foto.
Mas a verdade é que ninguém posta foto do próprio fracasso. Ninguém posta o dia em que acordou e não quis sair da cama. Ninguém posta a crise de ansiedade antes de uma prova, uma competição ou uma reunião importante... E é aí que mora o perigo!
O que a psicanálise sabe, há quase 100 Anos?
Em 1930, um cara chamado Freud — o pai da psicanálise — escreveu uma frase que parece que foi feita para o nosso tempo:
Citação 1: "É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação — isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida." - Fonte: FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Capítulo I (parágrafo 1).
Traduzindo, se necessário for... A gente vive correndo atrás de coisas que todo mundo diz que são importantes e esquece do que realmente importa: amizade de verdade, tempo com quem a gente ama, se sentir bem consigo mesmo, etc.
Freud já sabia: a sociedade nos empurra pra uma competição sem fim. E nessa corrida, a gente vai se perdendo de nós mesmos.
A fantasia do instagram vs. a realidade da vida
Hoje em dia a parada é ainda pior. Porque não é só a sociedade que cobra. São os algoritmos!
No Instagram e no YouTube, todo mundo parece feliz o tempo todo. O atleta comemora o gol. O influencer mostra a viagem dos sonhos. O streamer ri com a galera. Mas o que a gente não vê é:
· As horas de treino solitário.
· A ansiedade antes de uma competição.
· A sensação de vazio depois que a tela apaga.
· A pressão que não passa nem quando você "venceu".
O psicanalista francês Jacques Lacan explicou isso de um jeito muito interessante. Ele falou sobre o "estádio do espelho" — aquela fase da infância em que a gente se olha no espelho e se encanta com a própria imagem. O problema é que a gente nunca passa dessa fase.
Citação 2: "A assunção jubilatória de sua imagem especular por esse ser ainda mergulhado na impotência motora e na dependência da amamentação que é o filhote do homem"
Fonte: LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 97 (parágrafo 3).
A gente se apaixona pela imagem que a gente projeta — a foto que a gente posta, o personagem que a gente interpreta. Mas essa imagem é uma fantasia. Ela não é a gente de verdade. E quando a vida real bate — uma nota baixa, uma derrota, uma rejeição — essa imagem quebra. E aí vem o desespero.
O Jayden Adams, no campo, era o herói. Mas dentro de casa, talvez, ele fosse só um jovem de 25 anos carregando um peso que ninguém via.
Quando perder é perder a si mesmo
A Copa do Mundo terminou pra África do Sul no dia 28 de junho. Eliminação nas oitavas. Duas semanas depois, Jayden Adams morreu.
O que será que passou na cabeça dele nessas duas semanas?
Freud, em 1917, escreveu sobre algo que chama de melancolia. É diferente da tristeza comum. É quando a pessoa perde algo — um sonho, uma pessoa, um objetivo — e, em vez de superar, ela se perde junto com aquilo que perdeu.
Citação 3: "A sombra do objeto caiu sobre o ego" Fonte: FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917 [1915]). In: Obras Completas, Volume 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 254-255.
Quando a gente perde algo muito importante — e esse algo era o que dava sentido pra nossa vida — a gente pode acabar se voltando contra a gente mesmo. A pessoa que a gente amava, ou o sonho que a gente tinha, vai embora. Mas, em vez de odiar a situação, a gente começa a odiar a si mesmo.
Isso é muito comum em atletas, artistas e qualquer pessoa que coloca toda a sua identidade numa única coisa: "sou atleta", "sou influencer", "sou estudante de medicina". Se essa única coisa desmorona, a pessoa desmorona junto.
E essa é uma das grandes armadilhas da nossa época. As redes sociais e o esporte de alto rendimento ensinam a gente a ser uma coisa só: o vencedor. Mas a vida real exige que a gente seja muitas coisas — e que a gente saiba perder, recomeçar, pedir ajuda.
Você não precisa ser forte o tempo todo
O esporte de alto rendimento — futebol, judô, ginástica, qualquer um — tem uma regra não escrita: você não pode mostrar fraqueza. Não pode chorar. Não pode dizer que está mal. Não pode pedir ajuda. Porque se mostrar vulnerável, você perde espaço.
Mas a vida hoje cobra isso de todo mundo, não só de atletas. O aluno que precisa passar no vestibular. O jovem que precisa construir uma carreira. A menina que precisa ter o corpo perfeito do Instagram. Todo mundo está sob pressão. E todo mundo está tentando parecer forte enquanto, por dentro, está se despedaçando.
Freud, em 1930, já tinha um alerta sobre isso:
Citação 4: "Não se pode ignorar em que medida a civilização é construída sobre a renúncia pulsional, o quanto ela pressupõe a não-satisfação de poderosas pulsões" - Fonte: FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Capítulo III, p. 52 (parágrafo 1).
A sociedade pede que a gente abra mão de coisas o tempo todo — do descanso, do lazer, de ser quem realmente é — em nome do "sucesso". A gente aprende a calar a boca, engolir o choro e continuar. Mas essa renúncia tem um preço. E o preço, às vezes, é alto demais.
O que podemos aprender com isso?
A psicanálise não tem uma receita mágica. Mas ela oferece algumas coisas que podem fazer toda a diferença:
ü Se permita ser vulnerável = você não precisa estar bem o tempo todo. Não precisa esconder que está mal. Falar sobre o que sente não é fraqueza — é coragem.
ü O divã não é um palco = ao contrário do Instagram, a análise é o único lugar onde você não precisa performar. Não precisa ser engraçado, bonito ou bem-sucedido. Pode ser só você.
ü Separe sua identidade do seu resultado = você não é só suas notas, seus gols ou seus seguidores. Você é muito mais que isso. E precisa construir uma vida que faça sentido para você, não para a plateia.
ü Cuidado com o personagem = a imagem que você cria nas redes não é você. É um filtro. Quanto mais você investe nesse personagem, mais longe fica de si mesmo.
Conclusão
A morte de Jayden Adams é uma tragédia que ainda está sendo investigada. Mas a pergunta que fica é: quantas pessoas ao nosso redor estão sofrendo em silêncio neste exato momento, enquanto a gente olha pra tela e só vê sorrisos?
Se você se identificou com alguma parte desse texto, se sente que o peso de "ter que ser alguém" está te sufocando, procure ajuda. Fale com um adulto de confiança, com um professor, com um psicanalista. Não espere estar no fundo do poço pra descobrir que o silêncio é o pior dos venenos.
A psicanálise existe pra isso: pra que ninguém precise desaparecer pra que seu sofrimento seja, finalmente, levado a sério.
SOBRE O AUTOR:
Luiz J. Ribeiro Jr. — Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia. Se quiser conversar: WhatsApp
Referências (pra quem quiser se aprofundar)
- FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Companhia das Letras, 2010. Capítulo I, parágrafo 1.
- Trecho citado: "É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação..."
- LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949). In: Escritos. Jorge Zahar Editor, 1998. p. 97, parágrafo 3.
- Trecho citado: "A assunção jubilatória de sua imagem especular..."
- FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917 [1915]). Companhia das Letras, 2010. p. 254-255.
- Trecho citado: "A sombra do objeto caiu sobre o ego"
- FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Companhia das Letras, 2010. Capítulo III, p. 52, parágrafo 1.
- Trecho citado: "Não se pode ignorar em que medida a civilização é construída sobre a renúncia pulsional..."
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