Como um profissional de saúde mental faz o levantamento de fatores de risco psicossociais?

COMO UM PSICANALISTA AVALIA FATORES DE RISCO PSICOSSOCIAIS EM UMA EMPRESA – Um guia prático para profissionais e organizações.

 

Perguntas que serão respondidas neste artigo:

 

·  O que são fatores de risco psicossociais (e por que o nome correto é esse)?

·  Quem é o profissional de saúde mental que faz esse trabalho?

·  Onde esse levantamento acontece dentro de uma empresa?

·  Como ele é feito na prática, passo a passo?

·  Por que sua empresa precisa disso (e quais normas exigem)?

·  Onde encontrar e baixar as ferramentas para começar?

 

O QUÊ — O que são fatores de risco psicossociais?

 

Antes de qualquer coisa, um esclarecimento técnico necessário: não se chama "risco psicossocial". O termo correto é fator de risco psicossocial. A diferença não é enfeite — ela tem base na norma. Na NR-17 (a norma de ergonomia), o que se avalia é o fator de risco presente na organização do trabalho. Se esse fator não for controlado, ele pode se tornar um risco ocupacional. Mas o nome correto do que a gente identifica lá dentro da empresa é fator de risco psicossocial.

 

Fatores de risco psicossociais são características da organização do trabalho que podem afetar a saúde mental dos trabalhadores. Eles não são "estresse de fulano" ou "fulano é muito ansioso". Eles são elementos do ambiente — da forma como o trabalho é estruturado, gerenciado e executado. A Organização Internacional do Trabalho define como aspectos do ambiente de trabalho que podem causar dano psicológico, social ou físico.

 

Exemplos práticos:

 

ü  Exigências psicológicas excessivas (volume de trabalho que não cabe na jornada);

ü  falta de autonomia (o trabalhador não pode opinar sobre como fazer o próprio trabalho);

ü  suporte social insuficiente (liderança ausente, colegas hostis);

ü  violência psicológica e assédio moral;

ü  conflito entre vida profissional e pessoal;

ü  falta de clareza de papel (funções mal definidas);

ü  insegurança contratual (medo constante de ser demitido).

 

2. QUEM — Quem é o profissional que faz esse trabalho?

 

Não é o DP. Não é o ergonomista. Não é o auditor. É um profissional de saúde mental independente com formação clínica e conhecimento em normas regulamentadoras. Este profissional é contratado porque nenhum dos outros tem formação clínica para identificar sofrimento psíquico, assédio moral, sobrecarga emocional e dinâmicas relacionais adoecedoras.

 

O ergonomista mede iluminação, ruído e postura. O DP mexe com eSocial e burocracia. O auditor verifica conformidade de documentos. Mas quem escuta o funcionário de verdade? Quem consegue identificar o que não está sendo dito? Quem sabe diferenciar um estresse adaptativo de um quadro de burnout incipiente? Esse é o profissional de saúde mental.

 

Ele atua para:

 

·  Ajudar o responsável pela NR-1 — fornecendo os dados reais que alimentam o GRO (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais).

·  Ajudar o responsável pela NR-17 — entregando a avaliação qualitativa que a AET exige no item 17.4 (Organização do Trabalho).

·  Ajudar a equipe auditora — gerando relatórios dentro dos requisitos da ISO 45003:2021, a norma internacional de gestão da saúde psicológica no trabalho.

 

3. ONDE — Onde esse levantamento acontece?

 

Em qualquer organização que tenha funcionários. Para ilustrar, utilizaremos o cenário de uma rede de farmácias com 200 lojas, centro de distribuição e sede administrativa — aproximadamente 3 mil funcionários. Os setores avaliados são:

 

ü  Lojas (atendentes, caixas, balconistas, gerentes): Principais fatores de risco esperados incluem pressão por venda, medo de errar na dispensação, público estressado e falta de pausa.

ü  Centro de Distribuição (separadores, conferentes, motoristas): Principais fatores de risco esperados envolvem repetitividade, pressão por produtividade, risco de acidente e turnos exaustivos.

ü  Sede Administrativa (compras, RH, financeiro, marketing, TI): Principais fatores de risco esperados são cobrança por resultado, assédio moral e falta de autonomia.

 

4. COMO — Como o levantamento é feito na prática?

 

4.1 Etapa 1 — Planejamento e setorização

 

O profissional precisa entender a estrutura da empresa: quantos funcionários, turnos, setores e regimes de trabalho. Com a direção, define-se quais setores serão avaliados, a amostragem, o acesso às instalações e o espaço reservado para garantir o sigilo das entrevistas.

 

4.2 Etapa 2 — Escuta qualitativa (entrevistas e grupos focais)

 

Esta é a etapa que exige a expertise clínica. O profissional conduz entrevistas individuais e grupos focais. É uma escuta clínica, com sigilo garantido, onde o funcionário pode falar o que realmente pensa sem medo de retaliação. Coisas que nenhum checklist captura, como o medo de errar uma dosagem ou o assédio moral silenciado, emergem aqui.

 

4.3 Etapa 3 — Aplicação de instrumentos validados

 

A escuta é essencial, mas o relatório técnico exige dados psicométricos. Os principais são:

 

·       COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire): Instrumento internacional validado no Brasil (COPSOQ II-Br) em 2021. | Avalia exigências psicológicas, autonomia, suporte social, violência e conflito trabalho-família.

·  Inventário de Burnout (MBI — Maslach Burnout Inventory): Mede exaustão emocional, despersonalização e realização profissional.

 

4.4 Etapa 4 — Análise e consolidação

 

Os dados das entrevistas são cruzados com os escores dos instrumentos. O profissional analisa a gravidade de cada fator, como eles se manifestam no cotidiano e quais setores são prioritários para intervenção imediata.

 

4.5 Etapa 5 — Entrega do relatório

 

A empresa recebe um Relatório de Avaliação dos Fatores de Risco Psicossociais contendo identificação, metodologia, resultados por setor, análise qualitativa, recomendações práticas e o encaminhamento normativo para o PGR e eSocial.

 

5. POR QUÊ — Por que sua empresa precisa disso?

 

5.1 Razão 1: A lei exige.

 

A NR-17 e a NR-1 (GRO) determinam que esses fatores devem estar incluídos no PGR da empresa. Desde a Portaria MTE nº 1.419/2024, a obrigatoriedade está explícita. A malha fina do Ministério do Trabalho é digital e cruza dados de afastamentos do INSS com o PGR da empresa em tempo real.

 

5.2 Razão 2: As certificações exigem.

 

Empresas certificadas na ISO 45001 precisam atender também à ISO 45003:2021, que fornece diretrizes para identificar, avaliar e controlar os fatores de risco psicossociais dentro do sistema de gestão de saúde e segurança ocupacional.

 

5.3 Razão 3: O custo humano e financeiro do silêncio.

 

Afastamentos por transtornos mentais são a terceira maior causa de auxílio-doença no Brasil. Burnout e ansiedade custam bilhões às empresas em processos trabalhistas e queda de produtividade. Ignorar esses fatores é pagar um preço alto em capital e em vidas.

 

6. A SOLUÇÃO — O fluxo completo do trabalho

 

ü  CONTRATAÇÃO: Profissional de saúde mental independente.

ü  LEVANTAMENTO: Escuta qualitativa, instrumentos validados (COPSOQ, MBI) e observação.

ü  RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO: Fatores de risco por setor + análise + recomendações.

ü  ALIMENTAÇÃO TÉCNICA: AET/AEP (NR-17), PGR (NR-1/GRO), eSocial (S-2240) e ISO 45003.

ü  AÇÃO: Empresa implementa as recomendações para mitigação de riscos.

 

7. REFERÊNCIAS COMPLETAS

 

7.1 Normativas:

 

·       NR-17: Ergonomia (item 17.4). Site oficial do MTE: gov.br/trabalho

·       NR-1: GRO (subitem 1.5.3.1.4). Site oficial do MTE: gov.br/trabalho

·       ISO 45003:2021: Psychological health and safety at work. iso.org

 

7.2 Bibliográficas

 

·  FREUD, S. Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e no homossexualismo (1922). Vol. 18. Cia das Letras, 2011.

·       GONÇALVES, J. S. et al. Cross-cultural adaptation and psychometric properties of COPSOQ II-Brazil. Revista de Saúde Pública, 2021.

·       MASLACH, C. et al. Maslach Burnout Inventory Manual (4ª ed.). Mind Garden, 2018.

·       SOLMS, M. A Fonte Oculta. WMF Martins Fontes, 2024.

 

7.3 Ferramentas — Onde acessar

 

·       COPSOQ II-Br: Domínio público — copsoqbr.com.br

·       MBI: Licença paga — mindgarden.com

·       HSE Management Standards: Questionário gratuito (UK) — hse.gov.uk/stress

 

SOBRE O AUTOR

 

Luiz J. Ribeiro Jr. — Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia. Atua como profissional independente na avaliação de fatores de risco psicossociais em organizações de diversos portes.

 

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Contato profissional: www.guinapsi.com.br

 

AVISO LEGAL: Este artigo tem caráter informativo e educativo. Cada caso deve ser avaliado individualmente por profissional habilitado. O conteúdo não substitui consulta clínica nem assessoria técnica especializada.

Documento elaborado em 15 de julho de 2026.

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