PORQUE CUIDAR DAS EMOÇÕES É, ANTES DE TUDO, VALORIZAR A VIDA?

Este mês, o GuinaCast recebe um voluntário do CVV, o Centro de Valorização da Vida. E esse papo é o nosso ponto de partida, porque cuidar das emoções é, antes de tudo, valorizar a vida.

Dívida emocional é todo sentimento que você não pagou na hora. A raiva engolida. A tristeza empurrada para baixo. O medo fingido de não existir. A mágoa "deixada para lá", que não foi embora.

 

E aqui está a verdade que ninguém te conta: emoção não some porque você a ignora. Ela não é um pensamento que você apaga. Ela é energia, e energia não se cria nem se destrói, só se transforma.

 

Foi exatamente isso que Sigmund Freud descobriu em 1914. Quando uma emoção é guardada à força, ela não desaparece, ela se repete. Freud escreveu que o paciente não recorda o que foi esquecido e reprimido, "mas o expressa pela repetição" (FREUD, 1914, v. 12, p. 163).

 

Em vez de lembrar, a pessoa repete: repete o padrão, repete a escolha errada, repete a dor. A repetição é a assinatura do que não foi elaborado.

 

Por que emoções reprimidas não desaparecem? Porque elas não foram sentidas. Foram guardadas. E o que você guarda, você carrega. O que você carrega, pesa. E o que pesa, mais cedo ou mais tarde, te derruba.

 

E aqui está uma descoberta de Freud que talvez surpreenda você.

 

Em 1930, no texto "O Mal-estar na Civilização", Freud escreveu que o sofrimento nos ameaça a partir de três direções: do nosso próprio corpo, do mundo exterior e das nossas relações com os outros. E ele foi direto ao ponto: a maior fonte de sofrimento é a relação com os outros (FREUD, 1930, v. 21, p. 141).

 

Pensa nisso. Não é o corpo, não é a natureza, é o vínculo humano que mais nos adoece. E também é o que mais nos cura. Por isso as dívidas emocionais quase sempre nascem na relação: na traição, no abandono, na decepção, na palavra que faltou e na que sobrou.

 

A boa notícia? Se a relação adoece, a relação também cura. E é exatamente isso que a escuta faz.

 

Agora, um aviso importante para quem se culpa demais.

 

Quando você engole uma emoção, quando evita sentir, quando coloca a máscara de "está tudo bem", você não está sendo fraco. Você está se defendendo.

 

Quem explicou isso com clareza foi Anna Freud, filha de Sigmund, no livro "O Ego e os Mecanismos de Defesa" (1936). Ela mostrou que o ego, a parte da mente que lida com a realidade, usa estratégias para afastar o desconforto e a ansiedade. Engolir, negar e racionalizar são mecanismos de defesa (FREUD, A., 1936, p. 45).

 

Aqui está o ponto que muda tudo: a defesa não é o problema. O problema é quando a defesa vira prisão.

 

Defender-se de vez em quando é humano. Mas quando você passa a vida inteira se defendendo de sentir, você não está se protegendo, está se aprisionando. A análise ajuda você a baixar a guarda no momento certo, sem se machucar.

 

Traições, abandonos e decepções deixam marcas profundas. Muitas pessoas se tornam frias, distantes e emocionalmente indisponíveis, não porque não sentem, mas porque aprenderam que sentir é perigoso.

 

Donald Winnicott, um dos maiores nomes da psicanálise, escreveu uma frase que explica essa armadura com perfeição: "É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado" (WINNICOTT, 1963, p. 169).

 

Pensa comigo. Esconder-se é necessário, preserva o que é mais íntimo, é a "alegria" da proteção. Mas o desastre acontece quando ninguém nunca mais nos encontra: quando o isolamento vira prisão, quando a armadura fica tão grossa que ninguém chega ao que somos de verdade.

A pessoa fria se escondeu tão bem que deixou de ser encontrada, até por si mesma. O vínculo que cura não é o que invade. É o que encontra, com paciência e presença, como faz a escuta do CVV.

 

Agora, uma virada importante.

 

Melanie Klein, a psicanalista que revolucionou o estudo das emoções mais profundas, escreveu no livro "Inveja e Gratidão" (1957) que "a criatividade é a causa mais profunda da inveja" (KLEIN, 1957, p. 234).

 

Isso parece estranho à primeira vista, mas pensa comigo. A inveja, aquela sensação de que o outro tem o que falta em você, nasce justamente da dificuldade de reconhecer o que é bom. E o oposto da inveja, para Klein, é a gratidão.

 

Quando a carência é grande demais, a mente preenche os vazios com fantasias. Você se apaixona pela imagem, não pela pessoa. E quando a realidade não corresponde à fantasia, a decepção é devastadora.

 

A gratidão, a capacidade de reconhecer o que é bom, em você e no outro, é o antídoto. Ela não nega a dor. Ela equilibra a balança, para que a inveja e a carência não ditem a sua vida.

 

Emoção não é só sentimento, é lente. E lente distorcida mostra mundo distorcido. Com raiva, tudo parece ameaça. Com ansiedade, tudo parece perigo. Com mágoa, tudo parece rejeição.

 

E o perigo de sentir demais sem questionar? É o outro extremo da mesma armadilha: quem se afoga em toda emoção, quem reage a tudo no piloto automático, também não está sentindo de verdade, está sendo dominado.

 

Sentir de verdade é reconhecer, nomear e escolher o que fazer. É a diferença entre ser levado pela emoção e conduzi-la.

 

E chego à pergunta mais importante: como lidar com as emoções sem fugir e sem ser controlado por elas?

 

Três movimentos.

 

 

É o caminho do meio: nem engolir, nem explodir. Reconhecer, compreender, escolher. É isso que Freud chamava de elaborar, e é exatamente o trabalho que a escuta clínica faz com você, passo a passo.

 

Você não precisa pagar suas dívidas emocionais sozinho.

 

As dívidas emocionais não se pagam com tempo. Pagam-se com elaboração, com alguém que te escute sem julgar e te ajude a dar sentido ao que ficou em aberto.

 

Se você reconheceu algo de si aqui, não deixe para depois. Fale. Procure ajuda. O CVV atende pelo 188, todos os dias, 24 horas, de graça, com sigilo absoluto, porque às vezes o primeiro passo é simplesmente ser encontrado por uma escuta que acolhe.

 

E se você quer ir mais fundo na sua história, a porta da GuinaPsi está aberta.

 

Sua história não é uma sentença. É o ponto de partida de um propósito que ainda espera por você.

 

Eu sou Luiz Ribeiro, da GuinaPsi. Compartilha esse papo com quem precisa. E lembre-se: valorizar a vida começa por valorizar as próprias emoções.

 

Até a próxima guinada.

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

SOBRE O AUTOR:

Luiz J. Ribeiro Jr. — Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia. Com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar — incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social —, une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.

Este conteúdo é fruto dos seus estudos e da prática clínica.

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