A conversa com Elvis colocou um rosto em um problema que costuma ser tratado apenas em números. Homem de 47 anos, viúvo, pai de duas filhas que tinham 1 e 2 anos quando ele perdeu a esposa, Elvis viveu na prática o que a saúde mental masculina enfrenta no Brasil: a exigência de seguir firme, de sustentar os outros, de não parar para sentir. A história dele não é um caso isolado, é um retrato do que acontece quando um homem precisa atravessar o luto, a paternidade solo e a reconstrução da própria vida ao mesmo tempo, sem rede de apoio e sem espaço para o próprio sofrimento.
Foi esse ponto que a live trouxe para o centro do Setembro Amarelo. A saúde mental masculina ainda esbarra em barreiras culturais que dificultam a busca por ajuda e aumentam o risco de negligência emocional e de desfechos graves. Os dados ajudam a dimensionar a urgência: no mundo, cerca de 70% das mortes por suicídio envolvem homens, e no Brasil o risco entre eles é quase quatro vezes maior do que entre mulheres, segundo o Ministério da Saúde. Apesar disso, a procura masculina por cuidado segue baixa, travada pelo medo do julgamento e pelo estigma de que homem não adoece, não chora e não pede ajuda.
O que o caso do Elvis mostra, no entanto, é que a masculinidade pode ser ressignificada. Sustentar duas filhas pequenas depois de um luto não é sinal de fraqueza, é um exercício cotidiano de presença, escuta e cuidado, e é exatamente essa escuta que a psicanálise oferece como caminho. Falar sobre o que se sente não é menos homem, é mais humano. O convite do Setembro Amarelo, com o lema "Se precisar, peça ajuda", é justamente esse: quebrar o silêncio que mata aos poucos e lembrar que pedir apoio também é um ato de coragem, talvez o mais difícil e o mais necessário.
SOBRE O AUTOR:
Luiz J. Ribeiro Jr. — Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia. Com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar — incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social —, une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.
Este conteúdo é fruto dos seus estudos e da prática clínica.
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