A conversa foi sobre a resiliência vivida na pele, no meio de um ano que, para ele, foi dos mais intensos da vida. Depontes passou o último período à frente da campanha política do Bugdam Nunes (@bugdamnunes), um nome do mundo biker que decidiu disputar um cargo federal, e atravessou tudo aquilo que a política tem de mais cru: articulações que se refazem diariamente, leis que mudam da noite para o dia, a exigência de circular por escritórios e não só pelas ruas, e o desgaste de quem assume a responsabilidade por um projeto que não era só seu. O resultado não veio como o planejado, o Bug ficou de fora, ainda que dois outros candidatos apoiados por ele tenham entrado. Mas o que ficou não foi a derrota, e sim uma pergunta que ele mesmo se fez no ar: quem é você depois de tudo o que viveu esse ano?
A resposta que ele construiu ao longo da conversa é o coração do episódio. Ele disse que aprendeu que não precisa fingir que está tudo bem, que reconhecer que as coisas estão difíceis não é fraqueza, e que ser forte não é nunca cair, é cair, aprender e se levantar. Falou que hoje entende que nem toda perda foi um fracasso, e que nem toda conquista foi uma vitória, e que a maior vitória que conseguiu preservar foi tudo aquilo que a vida colocou no seu caminho. E há uma virada aí que merece atenção: ele disse que parou de sonhar, que aos 42 anos não tem mais sonhos, tem metas. Não é pessimismo, é uma decisão de não viver mais na promessa de um futuro imaginado, e sim na construção de um caminho concreto, com prazos, com responsabilidade sobre aquilo que depende dele. Porque, como ele mesmo resumiu, ele não tem controle sobre tudo o que acontece, mas tem responsabilidade sobre o que faz a partir do que acontece. Essa é uma das definições mais maduras de resiliência que a clínica escuta: não a ausência de sofrimento, mas a capacidade de não se dissolver nele.
A conversa, porém, não parou na história pessoal, e foi aí que ela encontrou a psicanálise. Luiz trouxe para o centro do debate uma máxima que atravessa a nossa época: o desejo do homem é o desejo do outro. E usou uma imagem que todo mundo conhece de perto. Você tem uma moto excelente, quitada, que não te dá problema nenhum, a moto que você sonhou durante anos. Aí um amigo vende a dele e compra outra, e todo mundo começa a exaltar a moto nova. De repente, a sua moto envelheceu sem ter envelhecido, e você começa a sentir que precisa de outra. O que mudou não foi a moto, foi o olhar que você passou a projetar nos outros. Você não deseja a moto do amigo, você deseja a veneração que ele recebe, o aplauso que você viu chegar até ele. E é exatamente isso que Lacan apontou: a gente vive o tempo todo querendo o que os outros recebem à luz do que eles fazem, e por isso a régua nunca é nossa, e por isso nunca chega. Quando você conquista, o aplauso não é aquele aplauso que você viu quando estava no outro, e o vazio permanece, porque o que se buscava não era o objeto, era o reconhecimento.
É nesse ponto que a conversa oferece uma ferramenta prática e profundamente ética, uma dessas que a gente leva para a vida: a distinção entre o que eu devo, o que eu posso e o que eu quero. O devo é o que tem que estar no devo, os filhos, o trabalho para comer e para ir e vir, o controle emocional, a saúde física. O resto é posso e quero. E a sabedoria está em não colocar no devo aquilo que é apenas posso e quero, porque é aí que a gente se perde, trocando a própria tranquilidade para impressionar pessoas que nem participam da nossa vida. O verdadeiro sucesso, concluíram, não é conquistar tudo o que os outros têm, é conquistar o que faz sentido para a nossa vida, no nosso tempo, sem perder a essência. A maior demonstração de riqueza não é ter o que impressiona, é ter a liberdade de viver sem precisar impressionar ninguém.
Esse é o fio que amarra o episódio inteiro. A resiliência de Depontes não foi sobre aguentar calado, foi sobre aprender a diferenciar o desejo que é seu do desejo que é do outro, e sobre sustentar metas sem se perder na comparação. Foi sobre reconhecer que a vida não é feita só de vitórias, que as derrotas ensinam, e que às vezes a vida não está nos impedindo de avançar, está apenas nos ensinando a seguir por outro caminho. Para quem atravessa um momento de guinada, seja uma derrota, um recomeço ou uma escolha difícil, a conversa deixa um convite: parar de correr atrás do aplauso dos outros e começar a perguntar, com honestidade, o que de fato faz sentido para você. Porque é aí, e só aí, que a resiliência deixa de ser resistência e vira construção. A sua nota não precisa ser dez para você ser suficiente, e a sua moto não precisa ser a do vizinho para ser a sua. O episódio completo está no YouTube e no Spotify do GuinaCast, e a porta da escuta segue aberta para quem quiser olhar para isso com mais profundidade.
SOBRE O AUTOR:
Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia, com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar, incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social, Luiz J. Ribeiro Jr une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.
Este conteúdo é fruto dos seus estudos e da prática clínica. | Saiba mais sobre o autor
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