Por fora, a sua vida anda. O trabalho existe, a casa existe, a agenda existe. As pessoas que te conhecem dizem que você está bem, que você é uma pessoa capaz, que você tem tudo para dar certo. E mesmo assim, no silêncio da noite, nada disso preenche. Você não sabe ficar sozinho, porque sozinho vira um peso. Você culpa alguém pelos seus problemas, e essa conta de culpa nunca fecha. E você olha para o futuro e não vê nada lá. Se você se reconheceu em uma dessas três frases, fica comigo nos próximos minutos, porque eu não vou te dar conselho de amigão, não vou te mandar levantar a cabeça. Eu vou te mostrar o que a psicanálise, uma escuta que existe há mais de um século, tem a dizer exatamente sobre esse estado. E vou te adiantar: essa dor que parece não ter motivo tem nome, tem estrutura e tem caminho de saída.
Vamos começar pelos números, porque eles mostram que o seu problema não é só seu, e não é a economia. Em outubro deste ano, uma pesquisa global da Ipsos revelou que 54% dos brasileiros relatam episódios de tristeza ou desesperança quase todos os dias, por pelo menos duas semanas seguidas. É mais da metade do país. E 58% colocaram a saúde mental como a principal preocupação de saúde, acima de qualquer doença do corpo. Agora repara na contradição: isso está acontecendo no mesmo ano em que o desemprego bateu 5,3%, a menor taxa da série histórica. Ou seja: a estatística diz que está tudo bem, e a metade do país não consegue sentir que está. E é exatamente isso que Freud descreveu em 1917, no texto Luto e Melancolia. Ele escreveu que no luto o mundo fica pobre e vazio, e que na melancolia é o próprio ego que fica pobre e vazio, porque a sombra do objeto caiu sobre o ego. Traduzindo sem jargão: quando você perde algo importante e não consegue elaborar a perda, o vazio não fica lá fora, ele migra para dentro de você. E esse objeto perdido não precisa ser uma pessoa ou um emprego. Pode ser um ideal, um futuro que você se prometeu um dia, uma versão de você que nunca chegou. A desesperança não é falta de fé. É uma perda que ninguém chamou pelo nome.
Agora o segundo sinal, e ele é delicado: a pessoa que coloca os próprios problemas na conta de alguém. O governo, a família, o ex, o chefe, o tempo perdido. Presta atenção em uma coisa que quase ninguém percebe: quem reclama todos os dias do mesmo alguém está, sem saber, mantendo um laço com esse alguém. A acusação diária é uma forma de agarrar. Enquanto a causa da sua vida está do lado de fora, o seu futuro está nos dedos de outra pessoa, e isso é o mais paralisante que existe, porque você não pode mudar o que está nas mãos do outro. Lacan escreveu, no Seminário 11, página 206 da edição brasileira: não há como me seguir sem passar por meus significantes. E a fórmula central dele é a mais incômoda da psicanálise: o desejo do homem é o desejo do outro. Em outras palavras: parte do que você sente, parte do que você culpa, parte do que você espera vem de fora de você, de uma voz que você nem percebe que herdou. E a pergunta que desarma essa conta é dura: se ninguém visse, se nenhum tribunal fosse julgar, o que você faria diferente amanhã? Quem consegue responder essa pergunta já começou a tirar a vida das mãos do outro.
E aqui entra a coisa mais bonita que Winnicott escreveu. No texto A capacidade de ficar só, de 1958, ele diz que saber ficar só é um dos sinais mais importantes do amadurecimento emocional. E depois entrega um paradoxo que muda tudo: a habilidade de estar realmente só tem sua base na experiência precoce de estar só na presença de alguém, escreve ele na página 34 da edição brasileira. Ou seja: ninguém nasce sabendo ficar só. A criança aprende a sustentar o próprio silêncio porque experimentou ficar sozinha enquanto alguém confiável estava ali por perto, sem cobrar nada. Quem não teve essa experiência suficiente, na vida adulta, preenche todos os silêncios: pessoas, celular, série, trabalho, barulho. Não por vício, mas porque o silêncio devolve aquilo que nunca foi metabolizado, e ficar frente a frente com isso dói. Então se você não consegue ficar sozinho, isso não é um defeito de caráter. É um feito que ainda não aconteceu. E a boa notícia, e é por isso que a psicanálise existe: esse feito se desenvolve. A análise é literalmente o treino do estar só na presença de alguém: você aprende a sustentar a própria companhia porque alguém confiável está ali, sem cobrar, sem julgar.
Agora o estado que talvez seja o mais cruel de todos: apesar de tudo estar indo bem, você não consegue ver valor em nada, não se sente completa. Freud estudou essa gente em 1916, no texto Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica, e descreveu um tipo que ele chamou de os que fracassam no êxito: pessoas que adoecem exatamente quando o sucesso chega, porque o objetivo que elas perseguiam nunca foi delas. Era o objetivo do outro. A régua era do outro. E quando você alcança, o vazio aparece, porque a promessa era falsa desde o início. A promessa era: quando eu tiver isso, eu me sinto completa. E Lacan explica por que essa promessa é um loop: o desejo é desejo do outro, então a cada conquista o olhar do outro muda, a régua sobe, e o fim da fila se move. Byung-Chul Han fechou essa conta em 2010, no livro Sociedade do Cansaço, na página 21: o burnout é uma queima do eu por superaquecimento, devido a um excesso de igual. O sujeito da sociedade do desempenho se explora a si mesmo, e mesmo vencendo sente que nunca é suficiente. Então ouve isto, porque é o centro do vídeo: ninguém fica completo, e não é porque você está falhando. A falta não é um acidente da sua vida, é a estrutura do humano. O que se conquista não é a completude. É a capacidade de desejar. E isso se aprende.
E o que a psicanálise oferece para quem está vivendo isso? Primeiro, ela não dá conselho, não te diz o que fazer, não promete milagre. Donald Winnicott mostrou, no texto sobre o falso e o verdadeiro self, de 1960, nas páginas 128 a 139 da edição brasileira, que quando a pessoa precisa se moldar para agradar e sobreviver, ela constrói uma casca perfeita, performática, e o que é verdadeiro fica escondido embaixo. Quem vive esse estado carrega uma casca dessas: estou bem, tá tudo certo, é só uma fase. E casca não sustenta vida, sustenta a exaustão. A análise é o único lugar onde você não precisa estar bem. E é aí que acontece o que nenhum conselho consegue: no espaço onde você não precisa performar, o verdadeiro self começa a aparecer, e as respostas aparecem junto, porque elas são suas e você não sabia que tinha. Eu sei que a objeção apareceu: e o custo? Vamos com honestidade: o Brasil registrou 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025, segundo o Ministério da Previdência, e o INSS gastou quase 954 milhões de reais com esses benefícios entre 2023 e 2025, segundo a ANAMT. Carregar esse estado sozinho tem preço, só que ele aparece em outra fatura, mais tarde. E existe porta de entrada pensada para o seu momento: a primeira conversa é sem custo, para você sentir se este espaço faz sentido, sem compromisso nenhum.
Para fechar, Freud, no Mal-Estar na Civilização, de 1930, página 84: a vida, como nos é imposta, é árdua demais para nós, traz-nos demasiadas dores, decepções e tarefas impossíveis. O desconforto que você sente não é defeito seu, não é ingratitude, não é fraqueza. Ele é estrutural, é humano. O que adoece não é o desconforto: é carregar ele sozinho, na conta do outro, sem nunca poder parar. A psicanálise não vende esperança pronta, e é por isso que a dela sustenta. O que ela oferece é o movimento mais importante que existe: sair da posição de quem cobra uma dívida do mundo, e chegar à posição de quem constrói o que ainda está por vir. Então eu te deixo com as duas perguntas que abrem essa porta: quem é você quando está só, sem celular, sem plateia? E o que você ainda quereria, se ninguém visse? Se essas perguntas te incomodaram, esse é exatamente o sinal de que vale a pena escutar isso com profundidade. Eu estou aqui, a agenda está aberta, a primeira conversa é sem custo, e o link está na descrição. Você não precisa saber onde começar. É exatamente por isso que a psicanálise existe.
SOBRE O AUTOR...
Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia, com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar, incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social, Luiz J. Ribeiro Jr une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.
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Bibliografia e citações
ü FREUD, S. Luto e melancolia (1917). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago. Citação: no luto o mundo fica pobre e vazio; na melancolia "a sombra do objeto caiu sobre o ego".
ü FREUD, S. Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica (1916). Edição Standard Brasileira, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago. Seção "Os que fracassam no êxito": pessoas que adoecem quando o desejo recalcado está prestes a se realizar.
ü FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). Edição Standard Brasileira, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, p. 84. Citação: "A vida, como nos é imposta, é árdua demais para nós, traz-nos demasiadas dores, decepções e tarefas impossíveis".
ü WINNICOTT, D. W. A capacidade de ficar só (1958). In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983, pp. 30-36. Citação (p. 34): "a habilidade de estar realmente só tem sua base na experiência precoce de estar só na presença de alguém".
ü WINNICOTT, D. W. Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self (1960). In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, pp. 128-139.
ü LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 206. Citação: "Não há meio de me seguir sem passar por meus significantes"; o desejo do homem é o desejo do Outro.
ü HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 21. Citação: o burnout é uma "queima do eu por superaquecimento, devido a um excesso de igual".
Dados contemporâneos
1. Ipsos, Monitor da Saúde 2026 (divulgado em 08/10/2026; Folha de S.Paulo, 10/10/2026): saúde mental é a principal preocupação de saúde para 58% dos brasileiros; 54% relatam tristeza ou desesperança quase todos os dias por pelo menos duas semanas; 61% se sentiram tão estressados que não conseguiram lidar.
2. IBGE, PNAD Contínua (via Agência Brasil, 29/09/2026): desemprego em 5,3%, menor da série histórica para o período; 103,5 milhões de ocupados.
3. Ministério da Previdência via G1 (05/10/2026): 546.254 afastamentos por transtornos mentais em 2025, recorde.
4. ANAMT / INSS via Veja (30/01/2026): afastamentos por transtornos mentais subiram quase 80% entre 2023 e 2025, custo de R$ 954 milhões ao INSS.
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