Você abre o Instagram e tem psicanalista falando de relacionamento. Abre o TikTok e tem psicanalista comentando reality show. Abre o podcast e tem psicanalista dando opinião sobre política, partido e eleição. A psicanálise está em todo lugar, mais popular do que nunca. E a pergunta que ninguém está fazendo é a mais simples de todas: o que a psicanálise, de fato, prega? Para que ela serve? E o que acontece com quem procura esse serviço, quando a pessoa que deveria escutar está ocupada demais falando? Fica comigo nos próximos minutos, porque a resposta tem mais de cem anos de história, e a contradição é de hoje.
Vamos começar pelo início. Sigmund Freud, em 1912, no texto Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, orientou os analistas a trabalhar em silêncio, sustentando diante do paciente uma posição que ele chamou de impeneetrabilidade, e recomendou que o analista se aproximasse do paciente como um espelho. Traduzindo sem jargão: quem paga para ser escutado não pode encontrar, do outro lado, alguém respondendo, aconselhando, direcionando ou opinando. A escuta só é analítica quando não é resposta. E a formação que sustenta isso, o tripé psicanalítico, análise pessoal, supervisão e formação teórica, não é detalhe: instituições de referência como a Associação Brasileira de Formação em Psicanálise estruturam o ciclo básico em no mínimo 24 meses e 1.440 horas, e no plano internacional o padrão é a Associação Psicanalítica Internacional, fundada em 1910 por iniciativa do próprio Freud. A psicanálise prega três coisas: silêncio, método e tempo. Repara que opinião não está na lista. E repara também que o que hoje se chama de psicanálise nas redes raramente passa no teste dessas três palavras.
Para que serve, então? Freud foi brutalmente honesto sobre isso, em 1930, no Mal-Estar na Civilização, página 84: a vida, como nos é imposta, é árdua demais para nós, traz-nos demasiadas dores, decepções e tarefas impossíveis. Ou seja, a psicanálise nunca prometeu felicidade, nunca prometeu paz permanente, nunca prometeu cura rápida. O que ela promete é mais modesto e mais fundo: transformar repetição em história. Aquilo que fica se repetindo na sua vida, o mesmo erro, o mesmo tipo de relacionamento, o mesmo bloqueio, deixa de ser um loop quando escutado, e vira um capítulo que pode ser fechado. Jacques Lacan resumiu a promessa máxima no Seminário 7, quando escreveu a fórmula da conduta analítica: não ceder sobre o próprio desejo. A análise serve para você recuperar o seu querer, que a vida, a família, o mercado e o algoritmo te emprestaram em comodato. E é por isso que ela não dá conselho: conselho é exatamente o que te empurra para o desejo de outro. Se alguém te vende psicanálise como atalho para felicidade, ou como resposta pronta para a vida, te vendeu outra coisa com o nome trocado.
Agora, o presente. E o presente tem documento. Em junho de 2025, o jornal O Globo publicou uma reportagem sobre o fenômeno dos psico-influencers: psicanalistas com centenas de milhares de seguidores, viralizando no TikTok, aparecendo em programas de TV, comentando realities e dando opinião sobre relacionamentos, autoestima e trabalho, tudo sob as óticas freudiana ou lacaniana. Em outubro de 2026, o Jornal O Sul registrou que psicanalistas ganharam status de influenciador, inspirando memes, falando sobre arte, política, burnout e angústia. E a academia já mapeou o problema: uma dissertação defendida em 2025 na Universidade Federal de Sergipe analisou a presença do psicanalista no Instagram como autoridade terapêutica e chegou a uma conclusão que resume tudo: a lógica das redes sociais opera de maneira distinta da lógica da psicanálise, porque as redes exigem visibilidade, performance e apelo emocional, e conduzem o psicanalista a uma posição de figura pública, ou mesmo de celebridade. E tem mais: a coluna da psicanalista Ilana Pinsky na revista Veja, de outubro de 2025, alerta que qualquer pessoa pode, em tese, se autodeclarar terapeuta e oferecer atendimento, porque a psicoterapia nunca foi regulamentada como ato privativo no Brasil. Campo aberto, demanda recorde, regulação tênue. É aí que a pergunta do vídeo fica séria.
O que acontece na clínica quando o psicanalista vira figura pública com opinião declarada sobre tudo? A própria reportagem do O Globo cita a resposta técnica: quando o analista está exposto, o paciente tem acesso às suas subjetividades, e essa exposição pode comprometer o processo terapêutico. Pensa comigo na mecânica. O paciente seguiu o analista no Instagram, leu a opinião dele sobre política, viu de que lado fica. E aí Freud, 1912, de novo: o analista era para ser um espelho, e virou um retrato assinado. Porque a escuta é transferência, é o paciente depositando naquela pessoa algo que ele não sabe nomear, e quando a bandeira aparece, o paciente silencia o que julga contrário. Ele não deixa de doer, ele deixa de dizer. Byung-Chul Han, em A expulsão do outro, de 2022, descreve exatamente o cenário que alimenta isso: a cultura digital expulsa o diferente e entrega ao sujeito um mundo espelhado, curado por algoritmos que só mostram o que ele já aprova. Quando o psicanalista capitula a essa lógica, ele deixa de oferecer o único espaço não espelhado que o paciente ainda teria, e vira mais um espelho na parede. E Lacan, no Seminário 11, página 206, fecha a conta: não há como me seguir sem passar por meus significantes. O paciente entra em análise, em parte, para atravessar os significantes do outro. Que estranho seria o analista virar o outro.
E do outro lado da cadeira, como está quem procura? O paciente de hoje chega informado, chega comparando, chega seguido. A pesquisa da UFS com pacientes de psicanálise online mostra que cada um constrói o próprio significado do tratamento, e o contexto é de demanda histórica: o Brasil registrou 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025, segundo o Ministério da Previdência, e a pesquisa Ipsos de outubro deste ano encontrou 54% dos brasileiros relatando desesperança quase todos os dias. Isso significa que a demanda por escuta é gigante, e a oferta, confusa: psicanalista formado, terapeuta influencer, mentor espiritual, coach de emoções, tudo misturado no mesmo feed. Nesse cenário, o que o paciente precisa entender é simples e não está nas redes: o psicanalista é definido pela linhagem de formação, pela análise pessoal que fez, pela supervisão que sustenta, e não pelo número de seguidores. A coluna da Veja dá o critério de ouro para o público: desconfie de quem vende tratamento com promessa rápida e de quem confunde especialista em emoções com influenciador de opinião. E acrescento o critério de ouro deste canal: desconfie de quem patologiza o adversário político. A psicanálise diagnostica sujeitos, não eleitorados.
Para fechar, eu quero ser justo com a história, porque a psicanálise nunca foi covarde diante do mundo. Freud escreveu, em 1932, um livro de correspondência com Albert Einstein sobre a guerra, Por que a guerra?. Maria Rita Kehl, psicanalista, jornalista e integrante da Comissão Nacional da Verdade, escreveu sobre o Brasil como ensaísta premiada com o Jabuti. Contardo Calligaris manteve coluna semanal na Folha de S.Paulo por mais de duas décadas. O debate é legítimo, a voz pública é legítima, e o professor Christian Dunker discute isso publicamente, popularizar ou vulgarizar, no canal dele com mais de 500 mil inscritos. O que a ética desenha não é silêncio, é função: analisar o mundo é trabalho de ensaísta; escutar um sujeito é trabalho de analista. E quando o mesmo profissional mistura os dois registros, o que se perde é justamente o que ele tem de mais raro: a escuta. Num país onde metade da população está desesperançada e o feed de todo mundo é um espelho, o consultório de psicanálise é um dos últimos lugares onde a fala não é ratificada por tribo. Se você está procurando alguém para escutar, pergunte três coisas: qual foi a formação, você fez e faz análise, e quem supervisiona o seu trabalho. Se a resposta for um seguidor, você já sabe. Eu estou aqui, a agenda está aberta, a primeira conversa é sem custo, o link está na descrição. A psicanálise pregou silêncio por um século. E é exatamente por isso que, quando ela fala, precisa ser para escutar melhor. Não para ser ouvida.
SOBRE O AUTOR...
Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia, com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar, incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social, Luiz J. Ribeiro Jr une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.
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BIBLIOGRAFIA E FONTES
Teóricas e clássicas:
1. FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912). Edição Standard Brasileira, v. XII. Rio de Janeiro: Imago. (Silêncio, impeneetrabilidade, o analista como espelho.)
2. FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). Edição Standard Brasileira, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, p. 84. Citação: "A vida, como nos é imposta, é árdua demais para nós, traz-nos demasiadas dores, decepções e tarefas impossíveis".
3. FREUD, S. Por que a guerra? (1932). Correspondência com Albert Einstein. Edição Standard Brasileira, v. XXII. Rio de Janeiro: Imago.
4. LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Zahar. ("Não ceder sobre o próprio desejo".)
5. LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 206. Citação: "Não há meio de me seguir sem passar por meus significantes".
6. HAN, B.-C. A expulsão do outro: sociedade, percepção e comunicação hoje. Petrópolis: Vozes, 2022. 135 p. ISBN 978-65-5713-350-7. (O "terror do igual" e a cultura do espelhamento.)
Fontes jornalísticas e acadêmicas de 2025-2026:
1. O GLOBO. "Psico influencers: Psicanalistas ganham popularidade nas redes e levantam debates sobre limites éticos", 30/06/2025. (Psicanalistas viralizando no TikTok e Instagram; "quando o analista está exposto, o paciente tem acesso às suas subjetividades".)
2. OLIVEIRA, Renata Alves de Carvalho. Autoridade e influência: a psicanálise e seu encontro com o digital. Dissertação, Universidade Federal de Sergipe (UFS), 2025. Citação-chave: "a lógica das redes sociais opera de maneira distinta da lógica da psicanálise".
3. PINSKY, Ilana. "A era dos influencers terapeutas: como não cair na lábia dos picaretas". Veja, 30/10/2025. (Psicoterapia nunca regulamentada como ato privativo no Brasil; critérios de proteção ao paciente.)
4. O SUL. "Psicanalistas ganham status de influencers na internet", 08/10/2026. (Psicanalistas como influenciadores, falando de arte, política, burnout e angústia.)
5. DUNKER, Christian. "Popularizar ou vulgarizar? O futuro da psicanálise nas redes". Falando NIsso (YouTube, canal com mais de 500 mil inscritos), novembro de 2025.
6. KEHL, Maria Rita. Episódio Estadão de 2010 documentado em pronunciamento do Senado Federal (07/10/2010); biografia oficial no portal da Comissão Nacional da Verdade (Arquivo Nacional). Prêmio Jabuti 2010 por O tempo e o cão: a atualidade das teorias freudianas.
7. CALLIGARIS, Contardo. "Para que serve a psicanálise?". Folha de S.Paulo, 26/08/2010; colunas semanais publicadas de 1999 a 2021 (ano de sua morte); análise em "Contardo Calligaris educador", Educação e Pesquisa (USP), v. 52, e296063, 2026.
Normativas e dados oficiais:
1. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº 010/2005.
2. MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL (via G1, 05/10/2026): 546.254 afastamentos por transtornos mentais em 2025, recorde.
3. IPSOS. Monitor da Saúde 2026 (divulgado em 08/10/2026; Folha de S.Paulo, 10/10/2026): 54% dos brasileiros relatam tristeza ou desesperança quase todos os dias; saúde mental é a principal preocupação de 58%.
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1 Comentários
Muito oportuno e esclarecedor, pois quebra a expectativa de muitos que procuram ajuda nos consultórios e atualmente na internete acreditando ouvir do proficional a resolução de seus problema e não a consciência de que precisam entender e trabalhar para obtenção e apaziguação doa mesmos.